No Brasil, há 240 tribos. Destas, 121 fazem parte dos chamados PNAs (Povos Não Alcançados). Infelizmente existem muitas barreiras para alcançá-los, dentre elas, cito: As barreiras políticas e religiosas, pois em pleno século XXI, cerca de 20 etnias ainda praticam o infanticídio entre indígenas. Esse princípio tribal leva à morte, não apenas de gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou ainda doença não identificada pela tribo; anualmente centenas de crianças são enterradas vivas e esta, é a principal causa de mortalidade infantil entre os índios. Lastimavelmente a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) está de acordo com essa prática nefanda, em nome do respeito à “cultura indígena” e o CIMI (Conselho Indigenista Missionário da Igreja Católica) concorda com a atitude da FUNAI e se recusa a ajudar os índios a abandonar tais práticas. Nós, da IEADTC, precisamos somar esforços e ampliarmos nossa atuação entre estas etnias, pois não é justo, estarmos ouvindo tanto a respeito da segunda vinda de Jesus sem que os índios não tenham ouvido, ainda, nem da primeira vinda do Salvador.

Os nossos missionários desenvolvem seu ministério entre os Nambikwaras, também chamados Anunsu, Anunzê, Nanbikuara, Nambikuara, Nambiquara, Nhambikuara ou Nhambiquara. Eles estão localizados no oeste do Mato Grosso e em Rondônia. Atualmente, existem cerca de 1400 indivíduos. Seus costumes são a caça e a coleta e, quase nunca, tiveram contato com os não índios até 1965; sua língua pertence à família Nambikwara.

Depois de uma longa viagem, em virtude da dificuldade de acesso, chegamos à noite na tribo da missionária Janice, que fica a 50 km da Cidade de Comodoro – MT. Alguns indígenas apresentaram certa resistência, inclusive ameaçando não aceitar a nossa presença, no entanto como já tínhamos a autorização do Cacique, permanecemos no local. Em seguida, apresentamos o filme Jesus (como não havia energia elétrica usamos um gerador). Foi maravilhoso vê-los assistir, pela primeira vez, a história de Jesus no idioma Nambikwara. Após o filme, falamos do amor de Deus e posteriormente continuamos falando com os indígenas que demonstraram interesse. No outro dia, fizemos várias visitas; além de mantermos uma conversa dentro da palavra de Deus, também, oramos por eles. Para ter acesso nesta localidade, a missionária Janice atuou como professora do município de Comodoro –  quero registrar minha admiração por esta guerreira que tem se doado para fazer Cristo conhecido entre os povos indígenas – lembrando que, nesta aldeia, serviu durante dois anos, mas entre os indígenas já faz 18 anos.

Visitamos uma aldeia, em que presenciamos parte do ritual da menina moça, “que transforma a menina em mulher adulta, apta para o casamento”. Os preparativos para a festa se iniciam pela ocasião da primeira menstruação, entre os nove e treze anos, quando começa a sua reclusão. A mãe da menina com a ajuda das velhas “sábias” da aldeia constrói uma pequena maloca com a porta voltada para o nascente, onde a menina ficará reclusa por um período aproximado de trinta a noventa dias, mantendo contato apenas com pessoas do sexo feminino. Segunda a crença, durante esse período a garota é considerada sagrada e, se olhar para um homem, poderá ficar doente ou até mesmo morrer. Quando se iniciam os preparativos para a festa, os homens saem para pescar, caçar porcos-do-mato, macacos, antas, capivaras e outros animais, que serão guardados para as comemorações dos últimos três dias que antecedem a soltura da menina. As mulheres, nesses últimos dias, colhem a mandioca brava e preparam a massa para o beijú, e com o líquido fazem a chicha, bebida típica de vários grupos indígenas. Milho, batata-doce e banana também podem ser utilizados para fazer essa bebida. Durante os últimos dias da comemoração, a comunidade convida outros grupos indígenas amigos; na maioria das noites, dança e canta em frente à casa ritual. No decorrer da noite, a moça é retirada, várias vezes, para dançar, ficando, sempre, entre dois homens, nunca pai ou irmão, podendo ser o padrinho ou até mesmo o futuro marido, que a amparam pelos braços, pois a mesma permanece o tempo todo de olhos fechados e a cabeça voltada para o chão. Eles ficam responsáveis pela moça durante toda a noite, até o amanhecer. Acreditam que durante a dança, que é realizada em círculo, os espíritos vagueiam no centro e se a menina abrir os olhos, poderá vê-los, podendo adoecer ou morrer. Enquanto dançam, batendo os pés no chão, movimentando o corpo para frente e para trás, caldeirões de chicha são colocados no centro para que todos os participantes possam beber.

Ao final da festa, a menina-moça é retirada da casa e colocada, de joelhos, na direção do sol nascente. Após alguns minutos, ela é erguida e virada para o poente. Esse ritual é para que o deus Nambikwara lhe dê longa vida. Encerrada a reclusão, a casa ritual é destruída pela mãe. A partir daí a menina está apta para o casamento. Nesta aldeia, compartilhamos a palavra de Deus, e o cacique pediu que enviássemos um missionário.

Em outra aldeia visitada, recebemos a notícia que o cacique havia se suicidado poucos dias atrás; nesta, também, não existe conhecimento do evangelho.

Observando e vivenciando a vida em comum nas aldeias indígenas, percebemos o quanto a carência do evangelho é extrema e que não podemos permanecer indiferentes. E, diante de tantas necessidades, surge a pergunta: Por que tantos cristãos batizados com o Espírito Santo e nas águas são infelizes? A explicação é simples: estão vivendo uma vida egocêntrica. Mas nós fomos chamados para vivermos uma vida cristocêntrica; a verdadeira felicidade está em vivermos para a glória de Deus e para servirmos ao próximo.

Apesar das dificuldades, o evangelho está sendo anunciado e junto com o missionário Ananias, realizamos um casamento coletivo para oito casais indígenas. Em seguida, batizamos sete novos irmãos e celebramos a santa ceia (como na selva não tínhamos pão e vinho, excepcionalmente, consagramos macaxeira e refresco de uva).

Muitas foram as experiências, nestes dias, e em todas elas contamos com o poder do Espírito Santo e muitas vidas foram abençoadas.

Pr. Paulo Roberto