Já se passaram quase vinte anos desde que o Senhor compartilhou comigo sobre uma obra que Ele tinha a fazer em Moçambique, na qual decidiu me envolver. Mas a obra não era só em Moçambique, era também em mim, pois não é possível desvincular o que Deus faz através de nós do que Ele realiza em nós. Há lições a aprender, há um chamado à entrega, à submissão, ao render-se e ao obedecer diário. E isso não se aprende em cursos de missões, nem em livros que versam sobre o assunto. Isso se aprende através das vivências e experiências com o Espírito Santo no dia a dia de um campo missionário. Esse campo pode ser em qualquer lugar. Mas quando temos que lidar com a distância da família, da cultura de origem, da língua materna, do sabor da nossa gostosa culinária, do nosso sistema de valores, das nossas preferências de lazer e o confronto com uma realidade cultural onde não se sabe nem qual é a posição correta para se sentar, você se sente totalmente desamparado e dependente. Se você é uma pessoa fechada, introspectiva e tem dificuldades em fazer relacionamentos, talvez você sofra um pouco mais. Se você é alguém mais aberto a novos relacionamentos, extrovertido, flexível e não tem a sua cultura como aferidor de medida, talvez você seja mais bem sucedido. O segredo da felicidade na vida missionária? Pra mim, é a arte de fazer amigos, aprender a respeitar e apreciar o diferente e a humildade de se colocar no lugar de aprendiz e não de mestre. Aprender com as pessoas da cultura local sobre a cultura local está associado a relacionamentos significativos e às muitas renúncias que temos de fazer. Algumas dessas lições foram duras e difíceis demais para mim, devido à minha natureza introspectiva, individualista e à falta de humildade. E olha que eu trazia muitos certificados na mala.

Como instrumento de aprendizado, a vida missionária nos reserva várias experiências e situações onde somos provados. Pessoalmente, sofri muito no tempo de solteira numa cultura onde só as mulheres casadas e com filhos são valorizadas, e onde uma mulher solteira é, muitas vezes, vista com desconfiança e ambiguidade por parte de homens e mulheres na nova cultura, quando eles ainda não entendem que fomos enviadas por Deus. Exercer posição de liderança nem sempre é fácil se a missionária está numa cultura em que a figura de autoridade e liderança está centrada no homem, como nas culturas patriarcais por exemplo. Vivi isso de perto. Mas veio o casamento transcultural com um ex–muçulmano da etnia Yao, “redimindo” essa minha condição. Agora eu tinha alguém da cultura convivendo comigo vinte e quatro horas por dia… Uma adaptação de nível mais exigente, apesar de aprovada pelo Senhor. Por sua natureza transcultural, o casamento trouxe novos ajustes culturais e desafios individuais.   Em seguida veio um dos períodos mais dolorosos para mim, na primeira infância do meu filho Rafael, quando constantes malárias e infecções respiratórias assolaram a saúde dele. Até os seis anos de idade, Rafael nunca passou mais que cinco meses sem ser acometido de malária; era magrinho e frágil… Foram mais de onze malárias, além das infecções constantes que se revezavam com essa doença. Vê-lo magrinho e constantemente débil, provocava uma imensa angústia em meu ser, especialmente num período de grande limitação financeira quando nós dependíamos de um sistema de saúde que é inimigo da vida, numa cultura onde a criança não tem valor. Um dia, o diabo acusou-me dizendo que eu era culpada pela condição do Rafa e se eu saísse de Moçambique seria melhor para ele. Nesse dia, eu entreguei completamente ao Senhor a vida do meu filho e o fardo do constante cuidado que eu tinha por ele. Senti-me livre e Rafael foi curado de uma vez por todas! Aprendi que confiar é esperar em Deus sempre e crer no seu santo e fiel caráter, independente dos resultados que eu quero ver. Porque os tempos difíceis passam.

A oportunidade de colocar a educação a serviço do discipulado e a alegria de ver Deus começar algo novo no meio da comunidade, remiu a dor dos tempos difíceis. Começamos o CECAVI(Centro Educacional Caminho da Vida) sem uma experiência pedagógica profissional, mas totalmente dependentes da Sua direção e instrução diárias. Cada sala de aula foi fruto de um milagre, e aprendi que milagres são frutos da obediência, do amor e fidelidade de Deus e que de fato Ele é poderoso para fazer infinitamente mais. Confiar em sua autoridade e exercer autoridade nEle são princípios que chamam à realidade o que não existe e que por nosso intermédio passa a existir. Ver a escola cheia de crianças e a promessa de Deus sobre eles se cumprir, contar com o respeito e a dedicação dos pais da comunidade, formar professores moçambicanos, ver a Igreja nascer no seio da comunidade, granjear o respeito do Governo local, fazer amigos sinceros entre os muçulmanos da cidade e deixar um legado de esperança e fé no Deus vivo foi e é o nosso maior galardão. Entender a hora certa de sair de cena e ter a coragem para dar às costas a todo esse legado também foi uma lição preciosa a guardar no alforje das minhas lembranças. Deus tem estações diferentes para nós e não devemos nos prender a uma estação que já passou por mais primaveresca que ela possa parecer.

Poderia dizer ainda que dentre as pérolas colecionadas ao longo desse tempo, as de maior brilho, mas de imensa dor, foram as pérolas obtidas através do perdão. Alguém perguntará, “por que de maior dor?”. E eu responderei, “porque elas vieram através das marcas com que fui ferido na casa dos meus amigos”. São aquelas causadas por pessoas chegadas, por vezes nossos patrícios e amigos, que não entendem a razão do nosso chamado, que não entendem a direção que estamos seguindo e podem julgar nossas intenções e motivações com uma dura medida. Não são todos que se alegrarão com as conquistas que fazemos e por uma razão ou outra, podem até mesmo ser antagônicos à obra que Deus confiou em nossas mãos. Mas a única pessoa responsável por cumprir e entender o chamado de Deus na sua vida é você. Penso que Deus não cobra de outros o entendimento acerca das coisas que Ele pede para nós fazermos. Continuamos nos submetendo uns aos outros, andando em humildade, mas lembrando que temos que prosseguir para o alvo da nossa soberana vocação em Cristo Jesus.

A despeito de todas essas coisas, eu não poderia me imaginar vivendo outro estilo de vida que não fosse a vida em missões. Há um peso de glória mui excelente sobre ela. Há um gozo, um sentimento de completude e de realização que me faz concordar que a vontade de Deus para cada um de nós é, sem dúvida, boa, perfeita e agradável.

Obrigada, Jesus. A Ti, Senhor, toda honra e toda glória!

Missionária Maria Betânia Aíde

Missionaria da IEADTC  em Moçambique – África