No último sermão de John Stott proferido na Convenção Keswick, em 17 de julho de 2007, ele apresentou três perspectivas bíblicas de nossa imitação de Jesus Cristo: passado (Rom 8:29), presente (II Cor 3:18) e futuro (I Jô 3:2). Todas apontam na mesma direção: há o propósito eterno de Deus – fomos predestinados; há o propósito histórico de Deus – estamos sendo mudados, transformados pelo Espírito Santo; e há o propósito final, ou escatológico, de Deus – seremos como Ele, pois o veremos como Ele é. Todos os três propósitos – o eterno, o histórico e o escatológico – convergem para o mesmo fim da semelhança com Cristo. “Deus quer que seu povo se torne como Cristo. Ser Semelhança de Cristo é a vontade de Deus para o Seu povo”. (John Stott).

  1. Entender Rom 8:29 como um propósito a ser seguido. O que está pré-desenhado é o modelo de Jesus Cristo e somos encorajados a segui-lo ou não.
  2. Em II Cor 3:18 está indicado o processo de formação nele, pelo poder do Espírito Santo – O discipulado objetiva a busca de nossa humanidade máxima, no poder do Espírito (II Cor 3.19). Os humanos que vivem o máximo de sua humanidade amam ao máximo, pensam na máxima medida que podem e são fecundos naquilo que é inerente à natureza de Cristo. Os seguidores de Jesus Cristo o conhecem (Jo 17:3), vivem com ele e andam como ele andou (Ef 5:1,2).
  3. Em Jo 3:2 há uma perspectiva futura que necessita ser antecipada, mesmo que parcialmente. Porém, na medida mais plena e radical possível.

Proponho, neste texto, uma espécie de roteiro ou estações importantes no percurso missional do Jesus Cristo de Nazaré. A nossa vocação precisa seguir o modelo de Jesus Cristo.

1. A MANJEDOURA – Símbolo de uma devoção que se compromete em expressar a glória de Deus, sendo humano ao máximo (Lucas 2. 8-20)

A manjedoura não é um berço isolado, ela está circunscrita a vários outros elementos. O local era muito precário – uma estrebaria. Todos os lugares destinados aos hóspedes estavam ocupados. O Verbo se fez carne de um jeito muito singelo, optou por uma estalagem adequada somente para quem pode viver, no máximo, a singeleza de sua essência.

Jesus nasceu em Belém, uma pequena cidade não incluída entre as principais. O profeta Miquéias já havia dito: “Mas tu Belém-Efrata pequena entre os clãs de Judá, de ti virá aquele….” (Miquéias 5.2). Belém deixou de ser uma pequena cidade desconhecida somente depois de Jesus ter passado por lá. Hoje, Belém é mencionada em quase todos os lugares do mundo.

A mãe, Maria, e o pai adotivo, José, eram pessoas muito simples, gente de condição humilde. Na humildade e singeleza estavam depositadas as virtudes do casal. Os nomes Maria e José passaram a ser preferidos depois que Jesus Cristo nasceu numa família de um casal com estes nomes. Quantas Marias? Quantos Josés? Quantas Marias Josés? Ou Quantos Josés Marias?

Jesus viveu sua infância e adolescência na desprezível Nazaré. Assim, Belém, Nazaré, Galiléia dos gentios são elementos proféticos denunciadores, são um estilo encarnacional da missão, sinalizando a ética de sua espiritualidade. Este é um modelo possível e viável para qualquer seguidor de Jesus Cristo. Um projeto sem burocracia! Belém, Nazaré, a Galiléia dos gentios, uma singela hospedaria. Maria e José, um casal de jovens, sem títulos e reconhecimento. Tinham, tão somente, temor a Deus e uma profunda devoção pela vida.

Em que sentido, somos semelhantes a Jesus Cristo em nossas opções? Pensemos na geopolítica de nossas ações e na estética de nosso trabalho. Em que medida o modelo pessoal de nossa prática reflete a vida do Jesus Cristo de Nazaré?

2. O DESERTO – Confirmação da singularidade, superação de toda a forma de tentação. (Mateus 4. 1-11)

No deserto não se recomenda levar muitas cargas. A imagem pública superficial perde seu sentido. Nada vale ali na solitude – só você mesmo. No deserto, o que Moisés possuía de maior valor era uma vara e nada mais.

Elias estava solitário, deprimido e sem qualquer suprimento. O deserto é esse lugar do silêncio de tudo. E aí, Deus se manifesta com a sua naturalidade, com o Seu jeito de sempre – visita em formas inesperadas. Fala de maneira extra-ordinária. No deserto tudo parece fora da rotina.

  1. Imitando a Cristo na capacidade de superação das tentações de poder.

Toda a queda (Lúcifer, nossos primeiros pais,..) é decorrente da tentação de se utilizar e usurpar o poder. Jesus, por outro lado, sendo em forma de Deus, assumiu a forma humana, humilhou-se até a morte e morte de cruz (Filipenses 2. 5-11). Para Jesus Cristo todo o poder pertence ao Pai e a autoridade está no empoderamento da comunidade no poder do Espírito.

  • Imitando a Cristo na capacidade de superação da tentação de exibir prestígio e fama. As pessoas são alimentadas por pressões sociais e religiosas, a fim de demonstrarem prestígio e fama. Esta é uma das tentações mais sutis em nossos papéis institucionais. O espaço público exige esse exibicionismo desnecessário. Jesus não caiu na tentação do prestígio e da fama. Para Jesus Cristo, este fascínio por fama e prestígio é uma afronta a Deus.
  • Imitar a Jesus Cristo na sua determinação em não colocar, absolutamente nada, no lugar de Deus. Jesus Cristo superou a tentação para acumular bens a qualquer custo – “…se prostrado me adorares…”. A crença que o ser humano vale pelo o que possui. Corremos o risco de sermos reconhecidos pela capacidade de captação de fundos. Se nos curvarmos às regras do ídolo de mercado vamos ficar ricos de bens e pobres de Deus.

Adorar a Deus é a mais libertadora de todas as devoções humanas. Adoramos pela necessidade que temos de resgatar a nossa imagem e semelhança de Deus. Não é Deus que precisa de nossa adoração – nós é que nos libertamos de nosso materialismo quando adoramos a um Deus que não se permite ser possuído ou controlado.

Vencendo a tentação de ser mais. Diante da descoberta de nossa singularidade, diante dessa capacidade de se perceber amado por Deus e assim, amar a si mesmo, estamos mais aptos a cumprir a missão de amar a Deus e o próximo.

3. UM JUMENTINHO NA FESTA Imitando a Jesus Cristo, diante do reconhecimento público – a opção estranha de um modelo despojado e sem fantasia.

Em Mateus, a descrição da entrada triunfal de Jesus está precedida do anúncio de sua morte em Jerusalém (20. 17-19). Os textos imediatamente anteriores são: o pedido da mãe de Tiago e João (20. 20-28) e depois, a cura de dois cegos em Jericó (20. 29-34).

Os textos seguintes são: A purificação do templo (21. 12-13) e a reação dos líderes religiosos pelo reconhecimento sincero das crianças ao ministério de Jesus (21. 14-17).

Em Marcos, a sequência dos eventos é bem semelhante à elaboração de Mateus. Lucas inclui o lamento de Jesus Cristo por Jerusalém. Os três têm em comum a purificação do templo e a reação dos líderes religiosos. Neste caso, está em questão o reducionismo da “casa do Pai” num grande negócio.

Um perfil estranho de se fazer missão sem preocupação com a auto-imagem. Jesus Cristo tinha clareza de sua singularidade e de sua essência mais profunda. Nada de fantasia – apenas a exposição de Si mesmo, e isto era o suficiente. O jumentinho como símbolo estético da graça que se manifesta entre a plebe. Do Rei que busca outros referenciais sem arrogância e prepotência. Um jeito estranho e surpreendente de revelação do Messias. Em que medida os nossos símbolos e estética sinalizam que somos seguidores do Jesus Cristo de Nazaré?

4. DA MESA AO GETSÊMANI – Imitando a Jesus Cristo no cumprimento da vontade de Deus, a despeito do sofrimento, abandono e traição.

Jesus Cristo marcou sua vocação e missão, fascinado em cumprir a vontade de Deus, mesmo diante do sofrimento e da tragédia. Assumir possíveis caminhos de sofrimento como oportunidade de serviço, crescimento espiritual e maturidade faz parte da agenda dos seguidores de Jesus Cristo. Encarar o abandono como chance de alerta aos amigos. Enfrentar a traição para falar de si mesmo e sinalizar a sua graça e o seu amor a despeito da tragédia  – “na noite em que foi traído, tomou o pão e deu graças”. O anúncio e a denúncia se manifestam pela prática do bem de quem na essência é o próprio Bem.

No Reino de Deus não basta fazer o bem, precisamos ser o Bem. Dar o corpo para ser queimado, entregar os bens aos pobres, mas se não for movido pelo amor – nada serei. (I Cor 13).

5. O CALVÁRIO – Imitar a Jesus Cristo na sua radicalidade em revelar o amor de Deus pela Vida.

 O calvário foi a ambiência da mais profunda manifestação do amor e da graça de Deus. O Jesus Cristo de Nazaré, no Calvário, nos ensina que a missão é um modo de ser, um estado permanente de alma que gera a festa do perdão, a passeata da vida desdenhando da morte. No Calvário, o amor em plenitude faz a sua passeata. Inibe o desfile da vingança, abafa a fama da violência e propagação do ódio. O Calvário é o símbolo de nosso altruísmo pleno, a atitude humana em sua plena maturidade.

Jesus cria uma ambiência capaz de desvendar o cumprimento total de sua missão. A despeito de todo o sofrimento, Jesus não se percebe como vítima da situação. Ele encara o Calvário como oportunidade de sua realização plena: a consumação de todo o propósito de Deus em sua vida. Jesus disse: “eu vim para que tenham vida…”.

Imitar a Jesus Cristo no caminho do Calvário não é uma opção suicida marcada pelo ódio. O Calvário é a decisão radical de amor a Deus e compromisso com a Vida, que pode por em risco a sobrevivência biológica do seguidor. Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, não pode gerar frutos.

Que caminhos do Reino de Deus, se seguidos à risca pela igreja, poderão gerar a nossa “morte” para ressurreição dos pobres e aflitos? Uma vez que a nossa grande paixão é ser seguidores de Jesus Cristo, aonde o Calvário entra como possibilidade em nossa atuação no Brasil?

De uma maneira objetiva há caminhos práticos e pedagógicos de aprendizagem para os seguidores e seguidoras do Jesus Cristo de Nazaré. O grande desafio da vida é cultivar o exemplo do Jesus Cristo de Nazaré, aprendendo e praticando seus ensinos, à luz do Evangelho.

Pr. Carlos Queiroz