A Reforma Protestante do século XVI foi sem sombra de dúvidas um movimento sócio-político. Como tal representou o rompimento com os poderes absolutos de Roma. Porém, mais que um movimento sócio-político, foi um movimento de renovação espiritual, de retorno aos princípios ensinados por Jesus e seus apóstolos. Os clássicos sola (Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide Solus Christus e Soli Deo Gloria), marcaram os pilares do movimento da Reforma. Neste artigo, quero enfocar um destes pilares e afirmar a sua importância para o movimento missionário subseqüente. Trata-se de Sola Scriptura.

A tradução da Bíblia antes da Reforma

Traduzir a Bíblia de suas línguas originais para línguas vernáculas sempre foi uma prática do povo de Deus. Antes mesmo de o Novo Testamento ser escrito, o povo judeu já havia traduzido o Velho Testamento para a língua Grega. Esta tradução ficou conhecida como Septuaginta ou versão dos setenta. Nos primeiros séculos da igreja cristã a Bíblia inteira foi traduzida para línguas como siríaco, armênio, latim, gótico, etíope, etc. Com o fortalecimento da igreja no ocidente e a adoção do latim como língua da igreja, o processo de tradução ficou esquecido. Anglada, falando sobre o assunto diz: “A Igreja Católica havia se dado por satisfeita com a versão latina de Jerônimo e não estimulava sua tradução para outros idiomas, por considerar a Bíblia um livro obscuro e não apropriado para ser lido por leigos”

Assim, a Igreja Católica passou a usar quase que exclusivamente o latim. Como o povo comum não falava esta língua nem a entendia, a compreensão do texto bíblico passava totalmente pelas mãos do clero. Os padres liam e interpretavam, à sua maneira, os ensinos sagrados. Nesse período, o que a igreja dizia tinha peso igual ou maior ao que a Bíblia dizia.

A Reforma e novas traduções

Lutero e outros defendiam as Escrituras Sagradas como única regra de fé e prática para todos os cristãos. Havia, porém, um problema. Como o povo poderia ler e interpretar as Escrituras se elas estavam acessíveis quase que somente em latim ou em suas línguas originais? Foi então que um esforço enorme pela tradução da Bíblia foi feito. Neste período inúmeras traduções surgiram. Lutero mesmo traduziu as Escrituras para o alemão. A sua tradução foi tão importante para o povo do seu país que estudiosos têm considerado Lutero como o pai da língua alemã. A famosa versão King James foi produzida na Inglaterra, o sínodo de Dort, na Holanda, promoveu a tradução para o holandês. Meio século mais tarde, mas ainda como fruto da Reforma, João Ferreira de Almeida traduziu a Bíblia para a língua Portuguesa. Desde então, centenas de línguas têm recebido o texto sagrado.

A tradução da Bíblia e a expansão do Evangelho

Foi o acesso à Bíblia traduzida e sua comparação com os ensinos da igreja de Roma que provocaram as maiores perdas no rol de membros da Igreja Oficial. À medida em que as pessoas descobriam o verdadeiro ensino bíblico se rebelavam contra todo e qualquer ensino que o contradissesse. Não é à toa que a igreja de Roma tenha feito um esforço enorme para destruir cópias das Escrituras traduzidas. A tradução para línguas de povos considerados não-cristãos, também provocou um grande avanço do evangelho em países como Índia, China, Coréia, etc.

Mais recentemente, as organizações Wycliffe para tradução da Bíblia e as diversas Sociedades Bíblicas têm produzido traduções em muitas outras línguas do mundo.  A Reforma mostrou que não pode haver verdadeiro cristianismo sem acesso às Escrituras. Mostrou também que somente as Escrituras devem ser a regra de fé e prática para o cristão.

Povos sem a Bíblia

Apesar de todo o esforço por parte dos Reformadores, hoje, em pleno século vinte e um, há ainda cerca de 2 mil línguas sem qualquer tradução das Escrituras, nem sequer João 3:16. Creio piamente que é tarefa da igreja traduzir e promover as Escrituras para essas línguas.

Plantação de igrejas e a tradução da Bíblia

A ênfase que os Reformadores deram ao uso das Escrituras nas línguas vernáculas pode ser considerada como um dos maiores ganhos para a cristandade, tanto do ponto de vista educacional e cultural, como de uma perspectiva missionária. Quantos não aprenderam a ler porque queriam ler as Escrituras. Quantos não se tornaram crentes ao lerem alguma porção bíblica. Quantas não são as histórias de colportores no Brasil que ganharam centenas de pessoas para o Senhor simplesmente por venderem-lhes a Bíblia.

Finalmente, promover o acesso do povo à Bíblia em sua língua materna deve ser uma tarefa prioritária em nosso empreendimento missionário. Plantar uma igreja e não promover o acesso dessa igreja às Escrituras na língua materna do povo é correr o risco de ver essa igreja nunca amadurecer, ou ainda pior, enveredar por tradições e costumes que não só não estão contidos no texto bíblico, mas ainda o contradizem. Portanto, para cada programa de plantação de igreja, deve haver um programa simultâneo de tradução das Escrituras.

“A fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus”. Rom. 10:17.

Sola Scriptura!

Miss. Ronaldo Lidório

Doutor em Estudos Interculturais e Antropologia pela Royal London University.