Em pouco mais de 10 anos, o apóstolo Paulo estabeleceu igrejas em quatro províncias do Império Romano: Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Antes do ano de 47 d.C., não havia congregações cristãs nessas regiões. No ano 57, o intrépido apóstolo podia planejar viagens missionárias para o distante ocidente sem se preocupar com o bem-estar das congregações no Oriente, pois estavam bem fundadas, robustas e crescentes. Não necessitavam mais da supervisão do missionário.

As igrejas locais estabelecidas por este varão de Deus se destacavam por três características: eram autossustentáveis, autogovernadas e autorreprodutivas.

Como é que Paulo teve tanto êxito em um mundo pagão e hostil? Qual é o segredo apostólico? Lendo o livro de Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas, encontramos a resposta.

  1. Os missionários foram enviados por uma igreja, a qual era guiada pelo Espírito Santo.

Embora Deus tenha chamado a Paulo e Barnabé para este ministério (At 9.15; 13.2), era de competência da igreja reconhecê-los e separá-los para a obra missionária. “Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”, At 13.2. A obra missionária é a tarefa de toda igreja.   Nossa parte, como Igreja de Cristo, é interceder e jejuar pela conversão do mundo perdido. É muito provável que os crentes da Igreja de Antioquia estivessem orando pela evangelização do mundo romano da época para que o Senhor enviasse obreiros para sua seara, quando o Espírito Santo falou da responsabilidade deles nessa tarefa. Embora Barnabé e Saulo fossem enviados “pelo Espírito” (At 13.4), a igreja foi o instrumento do Espírito para separá-los, comissioná-los (“e pondo sobre eles as mãos”) e enviá-los.

São óbvias as vantagens do missionário separado, comissionado e enviado pela igreja, em vez de trabalhar por sua própria conta. Primeiro tem a autoridade da igreja que o envia. Também tem o apoio de oração (2 Ts 3.1), conselho e suporte dos crentes (Fp 4.14-16). Por outro lado, o missionário tem que prestar conta por suas atividades e realizações (At 14.27). Isto o motiva a ser diligente e produtivo. Além disso, a comunicação com os irmãos da igreja estimula a intercessão inteligente e o contínuo envio de suporte.

  1. Os missionários formaram uma equipe que incluía irmãos leigos. Raras vezes Paulo se encontrava só, no livro de Atos.

Na primeira viagem missionária ele estava acompanhado de Barnabé e João Marcos (At 13.5); na segunda viagem, Silas e Timóteo (At 15.40; 16.3). Outros seus companheiros eram Lucas (20.4); Sópater, Aristarco, Segundo, Gaio, Tíquico, Trófimo . . . A estes, Paulo delegava responsabilidade e autoridade para batizar novos convertidos, por exemplo (1 Co 1.14). Em um dos casos, Paulo continuou sua viagem, enquanto um membro da equipe permaneceu na igreja local. Jesus mesmo usou da conveniência de enviar seus discípulos de dois em dois, para que pudessem animar e apoiar uns aos outros.

O obreiro que abre uma igreja, com frequência, precisa do apoio e ajuda de outro obreiro. Também é importante enviar uma família crente ao novo território para que haja pessoas nos primeiros cultos.

  1. Os missionários pregavam uma mensagem simples, de pura graça, e logo doutrinavam bem os novos convertidos. Anunciavam que o Messias havia vindo ao mundo “para salvar os pecadores”. A salvação não é complicada: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não pelas obras para que ninguém se glorie”. Não pregaram o legalismo (um monte de regras), mas somente a graça divina.

Observa-se também a importância de discipular e ensinar bem os novos convertidos: “não deixei de vos anunciar e ensinar publicamente e pelas casas” (At 20.20). As epístolas são testemunhos de como o apóstolo ensinava tanto a mais pura teologia como a vida prática para o crente. Em muitas de nossas igrejas hoje, os irmãos são anões espiritualmente, instáveis e carnais por falta de ensinamento sólido e sistemático. Hoje, os mestres na Palavra estão em falta; muitos se contentam somente em comover os crentes, sem edificá-los.

  1. O apóstolo Paulo era grande formador de obreiros. Três, de suas treze cartas, consistem em instruções e conselhos aos obreiros Timóteo e Tito, seus filhos na fé. É provável que, ao evangelizar uma área, estava orando que o Senhor da seara levantasse obreiros espirituais. Logo os reconheceu, os animou e os capacitou. Paulatinamente lhes delegou responsabilidade e autoridade (1 Tm 3.6).

Paulo não era do tipo “pastor orquestra”, ou seja, o que faz tudo sozinho. Não monopolizou a autoridade e seu púlpito. Como resultado, dentro de um ou dois anos, podia entregar a nova congregação em suas mãos e ir para outro lugar; sempre que podia, visitava as igrejas e mantinha contato com elas através de cartas.

Um missionário veterano que trabalhava na região de Santa Cruz, na Bolívia, contou o seguinte: “Nos primeiros anos do nosso ministério aqui, oramos pela salvação das pessoas. O Senhor respondeu nossas súplicas e se abriram várias igrejas. Todavia, quando precisamos retornar à nossa pátria, não havia obreiros para continuar a obra. Foi um erro pedir que Deus somente salvasse almas. Devíamos ter pedido para o Senhor levantar novos obreiros”.

  1. O apóstolo inculcava nos seus convertidos certos princípios vitais para o desenvolvimento da obra.

Ele lhes ensinava sobre a mordomia cristã e o dever de sustentar os obreiros cristãos. “E o que é instruído na Palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui” (Gl 6.6); “Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais? ”, 1 Co 9.11.

Em 1 Co 16.2, Paulo ensina que todos os crentes devem contribuir: “cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar”; a oferta deveria ser conforme as suas condições: “conforme a sua prosperidade”; a oferta deveria ser sistematicamente: “no primeiro dia da semana”. Dessa forma, a congregação poderia sustentar o pastor, liberando-o do trabalho material para que se dedique à obra espiritual. Convém que se ensine os novos convertidos a dizimar, porque estão abertos nesta etapa de sua vida espiritual.

Paulo também comunicava a paixão de pregar o evangelho a toda criatura: “Eu sou devedor tanto a gregos (as pessoas cultas) como a bárbaros (pessoas de outras culturas), tanto a sábios como a ignorantes”, Rm 1.14.

Cada igreja estabelecida pelo apóstolo e sua equipe tornou-se uma congregação missionária. Quanto à comunidade de crentes em Tessalônica, este fundador de igrejas observa: “E vos fostes feitos nossos imitadores . . . porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares, a vossa fé para com Deus, se espalhou”, 1 Ts 1.6,8.

 Texto escrito pelo Pr. Pablo Hoff é escritor de vários livros e traduzido pelo Pr. Cyro Mello