Os arqueólogos e antropólogos registram a presença da atividade religiosa nos tempos e lugares mais remotos da experiência coletiva da humanidade, independente da cor, língua ou expressão cultural, todos os povos cultivaram alguma forma de religião. Inicialmente por meio da arte e, posteriormente, pela apropriação de mitos alegóricos que explicavam os eventos do cotidiano “cada mito mostra como uma realidade veio à existência, seja ela a realidade total, o cosmos, ou apenas fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, uma instituição humana.” (Eliade, 2010:86).O simbolismo religioso marca as expressões artísticas e literárias de todas as civilizações e revelam de forma inequívoca, a busca pelo conhecimento do transcendente como parte integrante da vida. “A religião é o conjunto de conhecimentos, ações e estruturas com as quais o homem expressa reconhecimento, dependência e veneração em relação ao sagrado.” (Mondin, 1980: 101).

A atividade religiosa permeia todas as culturas e gerações sempre assombrada pelos riscos do extremismo, ora adotando um fundamentalismo sem capacidade criativa na tentativa de preservar uma liturgia morta, ora seguindo um liberalismo sem discernir a essência da missão. O Cristianismo está fundamentado na doutrina dos apóstolos, tal doutrina tem sua construção na ação divina ao formar a igreja. O Antigo Testamento registra em detalhes os rituais do sacerdócio levítico, preparar o sacrifício, interceder pela nação e ordenar os rituais previstos da lei de Moisés, eram atribuições diárias dos inúmeros sacerdotes que ministravam no templo. Cada ato apontava para uma realidade maior, prestes a se manifestar na vida e ministério do Cristo prometido às nações.

O sacerdote era um guia cuja responsabilidade era manter a lâmpada que iluminava o caminho eterno, um pastor capaz de alimentar na mesa da proposição os famintos de graça, e ainda um intercessor que ao estender a mão sobre o sacrifício substituto desviava a ira de Deus do pecador. Os rituais deveriam seguir uma lógica preservada pelos antepassados e manter vivo o simbolismo que apontava para uma realidade perfeita. Os cordeiros do sacrifício deveriam ser imaculados, os utensílios deveriam seguir um determinado padrão de estrutura e higiene, até o estilo das vestes sacerdotais foi previsto e delineado na lei.

O rigor nos detalhes demonstra a importância do ato, cada centímetro mensurado, cada movimento registrado. Se todos os ritos do antigo testamento representam a sombra, o que dizer do evento calvário? Numa tarde de sexta-feira, sob dores agonizantes de uma mãe e a desesperança dos discípulos, a natureza manifesta sua participação, o céu dispensa seu resplendor ao escurecer e a terra deixa de lado sua firmeza ao tremer. Um grito de vida ecoa do alto da cruz estabelecendo um novo tempo para a existência humana. A partir daquela declaração, o jardim voltou a testemunhar a relação entre Criador e criatura e a morte perdeu seu efeito devastador sobre a humanidade.

O sacrifício de Cristo fez cessar a necessidade do ministério sacerdotal, tendo em vista que sua morte foi satisfatória em aplacar a ira de Deus sobre todos. Os animais do sacrifício já não terão o seu sangue derramado sobre o altar, pois um cordeiro imaculado morreu de uma vez por todas. Cristo reuniu em si o sacerdócio e o sacrifício removendo da sombra os rituais judaicos e apresentando a incomparável realidade do caminho, verdade e vida. Cl:1.16 “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele”. O sepulcro vazio do domingo pela manhã é prova cabal que Ele permanece reinando sobre tudo e todos.

Pr. Danilson Castro