A escolha dos apóstolos e as instruções dirigidas a esses, durante seu ministério terreno, revelam o cuidado amoroso de Jesus na formação de discípulos maduros. Os ensinamentos dos últimos três anos pavimentaram uma jornada de amor desconhecida nos registros da humanidade. Neste limiar entre a vida e a morte, alguns discípulos permaneceram dispersos e distantes das realidades do Reino de Deus. O único elo capaz de manter a missão viva foi o amor, essência visível na decisão pessoal de Cristo em permanecer amando até o fim. Tal decisão não exclui do traidor o privilégio de dividir uma taça de perdão, entre fragmentos de pão, com aquele que ama, mesmo sabendo o que está prestes a se fazer.

O amor divino não tem seu fundamento em atributos humanos nem oscila de acordo com nossas escolhas. Alicerçado em seu perfeito caráter, este amor se mostra suficiente em todo tempo e circunstâncias. Uma vez imersos nesta verdade, toda vida cristã recebe novo significado. Por habitarmos numa realidade de sofrimento inescapável, todos os caminhantes carregam feridas da jornada. No calvário, as marcas de dor são repetidas no corpo daquele que sangrou a nossa morte, ato que nos privilegiou tomar acento à mesa, na certeza que este amor é capaz de cicatrizar as incontáveis marcas da existência.

O Reino de Deus é paradoxal em sua construção, as posições solenes não são ocupadas por aqueles que exercem proeminência neste mundo, as leis e ordenanças devem ser regidas pelo amor e o domínio divino sobre todas as coisas não exclui a liberdade humana. Nos dias que antecederam sua morte, Jesus escolhe realizar um jantar com os discípulos, pois a mesa sempre foi um bom lugar para eternizar relacionamentos. Durante a refeição, nenhum deles teve a atitude de manusear a tolha e a bacia, os utensílios estavam no ambiente e a higienização dos pés, antes das refeições, era tradição milenar entre os judeus. Enquanto os presentes esperavam um servo para fazer o trabalho, o Senhor da vida se ergue em direção aos utensílios e se põe a lavar os pés de todos.

O orgulho fez os discípulos esperarem uns pelos outros, a Santidade pegou uma bacia, uma tolha e limpou todo orgulho presente no ambiente, objetivando ensinar, em primeiro lugar, que ninguém é tão puro que não carregue poeira do deserto na existência e, em segundo lugar, revelar que ninguém é tão indigno que não possa manusear uma bacia e uma toalha. Sobre isso nos alertou Philip Brooks: “Pensar que você não pode fazer nada é tão arrogante quanto pensar que você pode fazer tudo”.

Que venha o teu Reino… E nos inspire a abrir espaços na mesa para aqueles que nos infligiram dor. Que venha o teu Reino… E nos ensine a apreciar um tempo de refeição e comunhão diante do sofrimento que nos aguarda além da porta. Que venha o teu Reino… E nos faça perceber que o instrumento mais eficiente da vida é servir ao próximo. Neste sentido, a bacia e a tolha são ótimas ideias para início de conversa.

Pr. Danilson Castro