O homem e a mulher sertanejos gritam o “clamor das pedras” (Lc. 19.40) por uma atuação mais profunda, integral e relevante da Igreja evangélica. A Igreja ouve esse clamor quando “vê” a realidade dos sertanejos e contribui na transformação da vida e do destino deles. Esse se dá quando…:

Primeiro, a Igreja “vê” e compreende a realidade do sertanejo: o Sertão é uma das 4 áreas que constitui o Nordeste brasileiro (Zona da Mata, Agreste, Sertão e o Meio-Norte); é denominado de região semiárida com uma área de 912 mil km², onde vivem cerca de 22 milhões de pessoas (46% da população nordestina e 13% da brasileira); é o semiárido mais densamente povoado do mundo; com as piores condições de vida; e o mais ensolarado do globo. O clima, a geografia, a natureza e a seca, então, são apontados como a principal causa dos dilemas do sertanejo, tais como a pobreza, a miséria, quando na verdade as causas são decorrentes da iniquidade social, de problemas políticos, sociais e culturais, como a corrupção com desvios de verbas municipais, estaduais e federais, e historicamente construídos, de natureza humana, do pecado!

A consequência disto é que mais da metade dos mais pobres do Brasil vive no Sertão nordestino com os piores índices de mortalidade infantil, analfabetismo, desemprego e processo de migração. O que a Igreja tem a ver com isso?

Segundo, a Igreja vive e prega o Evangelho de maneira integral, relevante e impactante incluindo na evangelização e na obra missionária a realidade das questões socioeconômicas: ela deve ver a si mesma como parte da história do Sertão e do sertanejo, como promotora e coadjuvante no processo de formação de uma nova realidade espiritual e social sertanejas, como um agente de transformação, afinal ela é enviada por Deus para anunciar e contrastar, através de obras, os valores do Reino de Deus em relação aos antivalores presentes no Sertão. Isso significa lançar fora a indiferença com relação à realidade histórica e socioeconômica do sertanejo; indiferença que é fruto de um dualismo que dá valor extremo ao espiritual em detrimento das questões humanas, preocupando-se só com a “alma” do novo convertido, com a vida eterna vindoura, porém, relegando a realidade presente.

Os males sociais crônicos que afetam a sociedade sertaneja não devem ser colocados pela Igreja no rol das ‘causas insolúveis’, tornando-se alheia, indolente, cauterizada nos sentimentos, esclerosada em atos de misericórdia. Esses males denunciam uma sociedade que está em processo social e espiritual de deterioração (ou já está deteriorada!), e, em tal contexto, a Igreja como sal e luz do mundo tem um papel relevante no sentido de não permitir que isso não chegue ao caos. A Igreja deve olhar para o sertanejo e sua dura realidade sob a ótica da Bíblia, sendo esta a fonte primária da sua reflexão, e dela extrair os fundamentos e princípios para entender a questão do pobre e sua pobreza, a fim de transformar a sua condição de maneira eficiente e eficaz.

A Igreja deve ter iniciativas e programas nas áreas de assistência e ação social para oferecer ao sertanejo dignidade nas áreas de saúde, educação, finanças, dentre outras. Em Mt. 25.31-46, no Juízo Final, Jesus se identifica com os pobres e necessitados e revela o quanto anseia pela transformação integral de suas vidas, “Porque (eu) tive fome… (eu) tive sede… (eu) era forasteiro… (eu) estava nu… e enfermo… e preso” (verso 35), e ainda “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (verso 40). Assim, a maneira como tratamos os pobres e necessitados é um sinal visível, externo, se amamos a Jesus ou não! A Igreja, na evangelização e em Missões, deve ouvir e atender ao clamor do sertanejo!

Pr. Ildemar Nunes de Medeiros – Diretor Acadêmico do Seminário de Teologia e Missões Kadoshi. Teólogo e Escritor.