Como vencer os desafios de nossa geração?

Depois que as palavras “sai da tua terra, da casa de teus parentes e vai à uma terra desconhecida”¹  foram proferidas, muitas lutas, emoções, aventuras, tristezas e alegrias foram experimentadas por aqueles que receberam a mesma ordem. Contudo, desde o tempo de Abraão até os dias atuais, as histórias de missões sempre vêm recheadas de graça, poder e misericórdia de um Deus relacional e soberano, trazendo um pano de fundo fascinante experimentado por aqueles que têm se envolvido neste ministério de levar o evangelho todo, a todos os povos, em todas as épocas e de todas as maneiras.

Hoje, o cristianismo tornou-se a maior religião no mundo, porém para isso houve esforços infatigáveis de homens e mulheres chamados como missionários(as), pessoas que ouviram a mesma voz que nosso patriarca e que não tiveram suas vidas por preciosas enquanto que cumprissem a carreira que Deus lhes havia proposto. Tais pessoas não pensaram no que iriam ganhar ou deixar, mas tinham como alvo fazer a vontade daquele que os havia chamado² e, assim, pagaram com suas próprias vidas para que muitos encontrassem a Vida³. Nosso presente é o resultado dos esforços de homens e mulheres que mudaram a história da humanidade, reescrevendo mapas e culturas.

Muitos foram os desafios­: fariseus, imperadores, cruzadas, vikings, longas viagens em barcos à vela, oposições governamentais e da religião estatal. As perseguições eram as mais diversas: epidemias, povos hostis e incontáveis barreiras humanas, intelectuais, linguísticas e fatores diversos. Lendo algumas páginas das escrituras, bem como biografias de alguns homens de Deus, notamos que em tempos antigos os missionários foram guerreiros natos, exploradores, sonhadores e visionários, homens de valor, do qual o mundo não era digno4 Peal Burck5 escreve que “nenhuma alma covarde ou tímida poderia navegar para terras estranhas e desafiar a morte e o perigo a não ser que levasse a religião como bandeira, sob a qual a própria morte seria uma glória. Partir, clamar, advertir e salvar outros eram uma exigência assustadora feitas às almas já salvas.

A cada época, dificuldades gigantescas eram levantadas, muitas delas não provocam hoje o mínimo de preocupação. Podemos citar como exemplo, os tempos de Moffat e Livinstone, que serviram ao Senhor na África, que em sua época era este continente era conhecido como “Cemitério de homem branco”, pois somente um em cada quatro missionários sobrevivia ao primeiro período de serviço, devido às epidemias, tribos hostis, canibalismos, animais selvagens, além da longa viagem em navios, falta de recursos e tantas outras limitações do mundo antigo. Então, vejamos que os desafios do continente supracitado, hoje já não assusta tanto, pois temos vacinas contra as ‘‘febres africanas”, não precisamos esperar por um barco por meses com cartas ou recursos financeiros, pois hoje temos transferências bancárias em todos os países. Atualmente, os aeroportos internacionais seguem um mesmo padrão, para que nos sintamos em casa em qualquer país. O sistema de centers também está padronizado em todo o mundo. Você não terá muita dificuldade para comprar roupa em qualquer parte do mundo, ainda que não fale sequer uma palavra em outra língua. Nos mercantis e até em pequenos comércios encontra-se comida industrializada ou o chamado “fast food” (comida rápida). Parece que o mundo vai diminuindo à medida que o tempo passa, porém ao mesmo tempo aumentam os desafios.

A ordem que nosso mestre nos deu em Mateus 28:18-20 tem impulsionado muitos cristãos ao longo dos anos a anunciar o Evangelho da graça a todas as nações. Nossos irmãos e primeiros missionários, eram desafiados a desbravar terras longínquas e desconhecidas, hoje, somos capazes de viajar pelo mundo inteiro, encontrando povos e lugares longínquos através de um pequeno aparelho eletrônico, sem sair do conforto de nossas casas. Em contrapartida, nesse mesmo tempo de tanta evolução tecnológica, ainda há muitos que não tem acesso a essa facilidade que o mundo digital oferece.

O tempo mudou rapidamente e com isso a sociedade está em constante transformação. Existe um fenômeno intruso que nos dá a impressão de uma padronização das culturas mundiais, a globalização, ou mundialização. Tal fenômeno, vem ganhando espaço dinamizado principalmente pelos modernos sistemas de comunicação. À parte os efeitos colaterais, como o desemprego, não devemos negar que essa nova ordem mundial tem facilitado muito a vida do homem. Isso facilita também a evangelização e as missões, pois o evangelho é também uma mensagem globalizada; é universal, portanto para todos os povos e de todas as épocas 6.

Vejamos o que a palavra de Deus fala na ‘‘lápide’’ de Davi em  Atos 13. 36: “…tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu, e foi para junto de seus pais…” Deus não chamou Davi para servir outra geração, senão a sua; devemos servir nossa geração, devemos servir esta geração hodierna não como se fosse a geração de Abraão, Policarpio, Willlian Carry, Daniel Berg ou até mesmo do ano de nossa conversão. Servir a Deus segundo as necessidades da sociedade de hoje e não de décadas atrás.  Nosso grande desafio é servir essa geração, a geração do pluralismo, do relativismo, do subjetivismo, do hedonismo, da mobilização, da urbanização, do pragmatismo, do experiencialismo, do misticismo moderno, do consumismo, da desconstrução da família, e do envelhecimento da população, da geração virtual com seus heróis vazios, essa é a geração que devemos servir seguindo as orientações de Cristo e não da mídia ou do politicamente correto e outros movimentos anti-Deus.

Atualmente, o homem pode estar virtualmente presente em toda a parte do planeta; pode este cometer adultério estando os dois indivíduos separados fisicamente por centenas de quilômetros, mas ligados através de uma rede, tanto na Internet, como em sua própria residência através do sistema celular de telefonia. Esses avanços têm revolucionado as indústrias e alterado profundamente a vida da sociedade. Isso já estava no cronograma divino “e a ciência se multiplicará” (Dn 12.4). Em função desses avanços, as igrejas têm reavaliado suas estratégias administrativas, os métodos de evangelização e de fazer missões.

Além disso, atualmente é fácil deslocar-se de um lado para outro do planeta, facilitando o encontro de vários povos: asiáticos, índios, árabes ou africanos nos nossos centros urbanos, ou através da internet. Hoje nosso desafio não é tanto geográfico, senão sociológico e ideológico. Apesar dos tamanhos progressos, as pessoas estão cada vez mais carentes, mais vazias, mais solitárias, mais confusas vivendo senão em um mundo virtual. Nunca foi tão alto o número de suicídios, tantos que tentam aplacar a tamanha dor que expande dentro de si.

Costumamos afirmar que os séculos XVI e XVII foram a era das missões na América; e que os séculos XIX e XX assinalaram o empenho das missões na África. Então, o século presente será marcado pelo empenho das missões em algum continente? Como a Ásia comunista? A Europa com uma civilização que, se não é ateia de maneira pragmática, é certamente positivista e agnóstica, pois tem como seu fundamento o princípio de pensar e agir como se Deus não existisse. O mundo Islâmico que tem crescido e balançado o planeta com sua crueldade e ameaças? Ou esse exército híbrido de pessoas ateias, hedonistas, consumistas e padronizadas em um sistema anti-Deus?

Como marcaremos nossa geração? Em que ponto será nosso maior impacto? Apesar das tamanhas facilidades que nosso século tem oferecido, temos ao mesmo tempo visto o abismo que nos separa de tantas pessoas que fazem de suas vontades seus próprios deuses. À medida que o tempo passa, mais cega a sociedade caminha para longe do seu Criador. Contudo, sabendo que Ele jamais desiste, homens e mulheres continuam desafiando a desesperança e lançando a semente do Evangelho da Paz nesse mundo carregado de guerra. A missão deixada pelo mestre de anunciar o Evangelho deve continuar sendo executada pela igreja, sendo fiel à sua essência.

Contudo, infelizmente, é possível ver a maneira como essa tarefa é, por tantas vezes, ignorada, esquecida, desapreciada ou subestimada pelo povo de Deus em suas igrejas e centros teológicos. Haja vista que o Cristianismo e missões estão ligados inseparavelmente, é impossível ser cristão vivo sem a vibrante busca de alcançar almas perdidas e levá-las a Cristo. Porém, muitas vezes existe a negligencia de algumas igrejas e escolas teológicas quanto à Missiologia, haja vista que a teologia nasceu por conta da missão e não o contrário, pois se há teologia em algum lugar é porque antes chegou um missionário para falar do Deus da teologia e surge a teologia para entender, defender e pregar o evangelho puro.

Assim sendo, devemos repensar tanto a sociedade, como nossa forma de levar o evangelho puro e sem misturas a esta sociedade miscigenada, perdida e sem identidade. Infelizmente, é possível hoje alguém já não saber que gênero nasceu, ou não ter vínculos culturais, perdidos pela multiculturalização. Precisamos da verdade à luz das escrituras, mensagem essa transcultural, para que voltem eles à autenticidade em sua imagem original (Genesis 1:26).

A mensagem deste missionário do novo século, não deve ter o objetivo de padronizar o mundo e nem destruir as culturas; sua mensagem, porém é universal. No dia do triunfo de Cristo e da Igreja, cada povo ou etnia se apresentará louvando a Deus na sua própria língua (Ap 5.9). Por isso, o apóstolo Paulo disse que, sendo livre, se fez servo de todos, judeu para os judeus, sem lei para os sem lei (1CO:19-22) a fim de ganhá-los para Jesus. Barnabé sabia que a tradição judaica era mais uma forma de manter a identidade nacional, e que isso em nada implicaria na salvação dos novos crentes; portanto, não seria necessário observar o ritual da lei de Moisés (At 15.19,20). Convém lembrar que a importação de inovações para as nossas igrejas pode desrespeitar a nossa herança espiritual. Muitas coisas não servem para a nossa cultura, como muitas coisas Tupiniquins de nada servem aos povos além mar pela mesma razão.

Em um mundo assim, o ideal do missionário não é alarde em repudiar a sua cultura de origem para se lançar completamente em uma nova cultura de adoção, entretanto deverá saber enfrentar de uma maneira consciente as “ondas globalizadoras” ajudando tanto a não acolher ingenuamente tudo de novo, como também, não se fechar em si mesmo. O perfil deste missionário atual deve ser versátil, porém, sem mudar a mensagem, sabendo que ele é antes de mais nada, um anunciador e testemunho vivo de uma mensagem que lhe foi confiada e que não é sua ou de sua cultura; mudam as circunstâncias, sistemas, os cenários, as modalidades, mas a mensagem é sempre a mesma.

O Reino de Deus cresce à medida que os pecadores vão se convertendo ao Senhor Jesus. A Igreja é a única agência do Reino de Deus escolhida pelo Senhor Jesus para levar a mensagem do evangelho a um mundo que perece por causa do pecado. Precisamos perceber a grande importância da evangelização e do acolhimento dos neófitos, pois com isso, estamos dando continuidade ao trabalho que Jesus começou. Esse trabalho proporciona crescimento espiritual, aumenta a experiência com o Senhor Jesus, além das bênçãos prometidas aos que corresponderem ao chamado do Mestre (Jo 15.16).

Precisamos de homens amigos de Deus e do evangelho, animados e motivados profundamente por uma força interior que nasce do amor de Cristo, a quem pretende seguir fielmente. Pessoas alimentadas pelo amor que motiva e encoraja a estar sempre pronto a partir em direção a uma nova fronteira, diante do desafio de um povo não alcançado pelo grande e inexplicável amor. Só este amor incondicional a Cristo o fará abrir um diálogo com outras religiões ou crenças para transformá-los à imagem e semelhança do Deus vivo e não apenas num intercâmbio de opiniões e culturas, todavia também não lhe proporcionando apenas refrigério aos seus problemas terrenos, bem como desvendando algo maior, tendo em vista a pátria definitiva com Deus Pai, onde não haverá distinções quaisquer, nem dor ou qualquer outra mazela terrestre.

John Stott afirma que os conservadores costumam ter conteúdo sem relevância, ao passo que os liberais tem relevância sem conteúdo. Precisamos encarar o desafio de fazer com que esta antiga mensagem de salvação, chegue ao coração desta nova geração de forma poderosa e impactante. Nossas vidas devem ser instrumentos para o agir de Deus. Além dos sermões, precisamos da prática, seguindo o modelo deixado pelo Mestre. Tocar os intocáveis, aproximar-se dos excluídos, enxergar os invisíveis dessa cruel sociedade materialista. Além de alimentar os famintos com o pão, podemos utilizar a tecnologia para alimentar as insaciáveis almas, que buscam alegria em um mundo virtual, com as Palavras da Vida, aquelas que jamais voltam vazia. Sim, podemos fazer mais e o que fará toda a diferença é o que impulsiona cada ação. Esta geração exige coerência e graça, solidez e flexibilidade, posicionamento e amor.

O amor é, pois, o maior requisito para o perfil do missionário do século XXI; o mais antigo e aquele que maior novidade apresenta aqueles que se aproximam da fonte, o próprio Deus. Que a obra de Cristo seja traduzida e aplicada em nossas vidas de forma profunda, fazendo-nos capaz de impactar nossa geração.

Missionários Marvyo Darley e Priscila Alencar.

 

  1. (Genesis 12:1) Modificado
  2. (João 6:39)
  3. (João 14:6 )
  4. (Hebreus 11:38ª )
  5. Peal BurcK, Escritora americana, Filha de pais missionários presbiterianos, aos 3 anos de idade foi levada pelos pais para a China, onde foi criada.
  6. (Mc 16.15; Ef 2.14-19; Cl 3.11).