Carlos Augusto Vailatti

Que o Nosso Senhor é merecedor da legenda em epígrafe não resta a menor dúvida. No texto grego do Novo Testamento, Jesus recebe o título de rabbi (“meu mestre” – literalmente, “meu grande”) 12 vezes, Rabbouni (forma variante de rabbi e que também significa, ipsis litteris, “meu grande”) 2 vezes e didaskalos (“mestre”) 43 vezes. Estas estatísticas notáveis podem ser facilmente comprovadas nos dados brevemente fornecidos a seguir.

A afeição de Jesus pelo ensino pode ser precocemente percebida desde a sua adolescência, quando este, aos doze anos de idade, é encontrado no templo, entre os doutores da Lei, ouvindo-os e interrogando-os (Lc 2:46). Nessa época, a sua inteligência e respostas já provocavam a admiração dos seus ouvintes (Lc 2:47). Mais tarde, em sua fase adulta, Jesus mostra-se absolutamente familiarizado com as Escrituras quando, na sinagoga de Nazaré, ao receber o rolo do profeta Isaías para lê-lo durante o serviço litúrgico, nos é dito que ele “achou (gr. heuren) o lugar onde estava escrito” – Lucas faz referência aqui (em Lc 4:18-19) ao texto de Isaías 61:1-2.

Goodspeed nos lembra de que esse ato de Jesus ao “achar” a passagem de Isaías desejada para ler, era uma “coisa difícil de fazer na longa série de colunas daquele livro, cujo texto impresso soma 125 páginas grandes e o rolo hebraico teria não menor número de colunas, sem número para indicar capítulos, letras minúsculas ou números de colunas (pois não havia páginas) para auxiliar o leitor em sua procura”.[i]

Em outro conhecido episódio de seu ministério, a fala de Jesus à multidão que o seguia novamente remete ao seu ofício de mestre, quando Ele diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30).

No entanto, sabe-se que no sistema rabínico antigo existiam diferentes formas de pensamento quanto à interpretação da Torá, as quais eram conhecidas como “jugos”. Desse modo, para se tornar discípulo de um rabi, o candidato a tal posto deveria “tomar o seu jugo”, isto é, deveria aderir à interpretação do Antigo Testamento daquele rabi sobre si.[ii] Aliás, a fala de Jesus em Mt 11:28-30 ecoa o pensamento de Eclesiástico 51:26-27: “colocai o vosso pescoço sob o jugo, recebam vossas almas a instrução, ela está perto, ao vosso alcance. Vede com os vossos olhos: como estou pouco cansado para conseguir tanto repouso”.[iii]

Além dessas breves informações apresentadas, devemos nos lembrar de que o Mestre por excelência, Jesus, não apenas começou o seu ministério público citando as Escrituras (Lc 4:4, cf. Dt 8:3; Lc 4:8, cf. Dt 6:13; 10:20; Lc 4:12, cf. Dt 6:16), mas também o concluiu, na cruz, mencionando-as (Mt 27:46, cf. Sl 22:1). Ele iniciou e encerrou o seu ministério terreno tendo a Bíblia em mente.

Enfim, poderíamos resumir a nossa breve reflexão dizendo que Jesus exerceu um ministério centrado no ensino. Em sua encarnação, ele nos ensinou a humildade; em seu convívio com os pecadores, o altruísmo; em suas curas e exorcismos, a sua compaixão e misericórdia pelo sofrimento alheio; em sua morte na cruz, o significado do amor; e em sua ressurreição e ascensão, a sua divindade. Dois mil anos se passaram e Jesus continua sendo a figura central da história da humanidade. Nossos calendários se dividem em antes e depois dele. Ele é a personagem histórica que mais inspirou a escrita de livros, a composição de músicas e a pintura de quadros. Ele é o Mestre por excelência!


[i] GOODSPEED, Edgard J. Como Nos Veio a Bíblia. São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1981, pp.14-15.

[ii] DEAN, Jennifer Kennedy. Secrets Jesus Shared: Kingdom Insights Revealed through the Parables. Birmingham, New Hope Publishers, 2007, p.26.

[iii] GIRAUDO, Tiago e BORTOLINI, José. [Eds.]. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, 1985, p.1329.