Na minha infância, a ideia de igreja perseguida girava em torno da comunidade de fé do Novo Testamento. A história de Estevão, o primeiro mártir da história da igreja; a decapitação de Tiago; as prisões dos apóstolos e de cristãos; o exílio de João na ilha de Patmos; as adversidades, agressões, prisões e morte de Paulo davam um tom de uma igreja que vivia debaixo de uma forte onda de perseguição.

Na escola, invariavelmente, eu era o único aluno da sala de fé cristã evangélica. A linguagem diferente, o comportamento distinto, a não participação de algumas programações, a separação de algumas atividades religiosas deixava patente minha visão e prática de fé divergente da maioria vigente no país. Isso rendia admiração e curiosidade por parte de alguns e rejeição, exclusão, piadas e zombaria por parte de outros.

Na igreja neotestamentária, a situação certamente era mais grave do que vivi principalmente em minha infância e pré-adolescência. Pois, aqui no Brasil, eu não corria risco de vida. No máximo, eu perdi a participação em um programa acadêmico que tempos depois se revelou em benção para mim. A igreja nas páginas de Atos nos deixa cientes de que a perseguição não é apenas dor e muito menos abandono de Deus. Que a perseguição pode revelar uma presença de Deus de modo ainda mais incrível ao conduzir a história para seus maravilhosos propósitos.

A perseguição que parecia mal, tornou-se em benção para a igreja e para o mundo. A igreja foi abençoada ao ser pelas circunstâncias da perseguição impulsionada para fora de sua zona de conforto para a zona de obediência de espalhar o Evangelho por todo o mundo. Também a perseguição foi um elemento filtrante que ajudava a eliminar as falsas conversões, pois de modo externo, elevava o nível de compromisso de fé e benção para o mundo, porque a igreja se viu forçada pela perseguição a testificar e testemunhar para além do seu círculo geográfico, toda vez que era forçada a fugir em busca de segurança. Compromisso, santidade e crescimento espiritual e numérico de cristãos são marcas da perseguição relatada por Lucas.

Na minha experiência (não fico nem à vontade para chamar de perseguição aquele aspecto discriminatório que vivi diante das páginas neotestamentárias, da história da igreja e da igreja perseguida hoje) percebi que a situação contrária, excludente e constrangedora a que era submetido, na verdade,empurrou-me a uma relação próxima de Deus, ajudou-me a desenvolver a minha fé, e exigiu de modo natural que eu soubesse defender a razão da minha fé. Abriu portas para eu testificar e testemunhar. As portas também foram abertas pela perseguição, na igreja primitiva para alcançar o mundo.

E hoje Portas Abertas (www.portasabertas.org.br) é um ministério cristão, fundado pelo holandês irmão André – o contrabandista de Deus, que apoia a igreja perseguida em nossos dias. No Brasil, também temos uma missão que nasceu aqui em solo verde-amarelo para apoiar a igreja sofredora em todo o mundo: a Missão Mais (www.maisnomundo.org). Encorajo você a acessar o site dessas missões e conhecer mais sobre a igreja perseguida. A perseguição não é uma realidade restrita às páginas da Bíblia ou da história, a perseguição acontece hoje, neste exato momento, que você lê esta revista.

Os irmãos da igreja perseguida têm muito a ensinar aos irmãos da igreja que tem liberdade para viver e expressar sua fé. E nós temos uma dívida para com eles, pois somos um só corpo em Jesus Cristo.

Permaneça o amor fraternal. (…) Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo. ”Hb 13.1,3

Pr. Hilquias Benício – Pastor Presidente da AD. Cidade, Teólogo e Escritor