2 Re 5.1-19

Naamã, destacado chefe do exército do rei da Síria, homem guerreiro, respeitado, que gozava da inteira confiança de seu rei. Vitorioso em inúmeras batalhas, Naamã defrontou-se com uma batalha que o colocaria numa posição de risco e o desnudaria diante da fragilidade humana. Conheceu através de seu corpo sua vulnerabilidade: estava leproso. Como as Escrituras relatam: “era ele herói de guerra, porém leproso” (vs1).

As conquistas, as batalhas, vitórias e medalhas não o ajudariam muito diante desta que parecia ser sua última e derradeira batalha. Naamã deveria agora aquietar e esperar até que seu corpo estivesse totalmente branco e despedaçado, restando-lhe apenas esperar pelo último suspiro. Restaria agora ao famoso general, continuar dia após dia olhando absorto por sua janela, saudosista de seus dias quando ainda podia sair para mais uma batalha.

Porém, Deus não enxergava a vida pelos olhos deste grande e conceituado general. Pelo contrário, Ele a via pelos olhos de uma menina. Menina sem títulos, sem medalhas, sem prestígio, aliás uma menina-escrava. Escrava não dos sírios, muito menos de Naamã, mas escrava do amor do seu Deus, o Deus de Israel.

Aquela menina aparentemente “escrava” era livre em seu espírito. Ela não perdeu sua identidade, muito menos sua esperança e nem sua relevância. A menina tinha em seu coração uma palavra de esperança, de reconciliação e de vida, apesar das contingências que a cercavam.

A mulher do general escutou a mensagem proferida pela menina em forma de suspiro: “Ah… quem me dera o meu senhor procurasse o profeta que esta em Samaria! Ele o curaria da sua lepra… ah! se ao menos ele estivesse diante do profeta…ah! se ele pudesse chegar em Israel e conversar com o profeta…. Ah!” (vs3)

De onde vem tanta certeza, tanta convicção e esperança quanto à sorte daquele herói? De onde brotaria tamanha confiança de que o general seria salvo de sua terrível lepra? Creio que do mesmo lugar de onde vem a certeza, convicção e esperança daqueles que em terra estranha levam a mensagem de esperança que aprenderam em suas terras de origem.

Homens e mulheres que levados pelo Espírito se sentem absolutamente livres para propagar a mensagem de esperança que um dia ouviram aos pés da cruz a todos  que estão terrivelmente enfermados pelo pecado. Generais, heróis, tremendamente habilitados para as batalhas deste mundo, mas completamente rasos e desprovidos em matéria de esperança e de vida.

Missionários e relevantes são aqueles que apesar da aparente “escravidão” carregam em seu peito a mensagem das boas novas do evangelho, até mesmo àqueles que são conceituados, honrados e respeitados mas continuam a sofrer com a terrível lepra do pecado.

A mensagem de fé e esperança daquela menina, a verdadeira heróina dos seus dias,  chegou aos ouvidos de Naamã. Não havia razões suficientes  para um general dar ouvidos a uma menina-escrava. Porém, sabemos que a mensagem não era da menina-escrava, era a mensagem dada pelo verdadeiro Deus de Israel aos homens de boa vontade.

A mensagem nos lábios daquela menina, não mais escrava, mas de uma verdadeira missionária, profeta da esperança, falou tão forte ao coração de Naamã, que ele de pronto a levou ao seu senhor:  “Assim e assim falou a jovem que é da terra de Israel” (vs4).

Surpreendentemente o rei diz a Naamã: “Vai, anda…” (vs5). Ele poderia questionar seu general, dizendo: “Quem falou isso? Aquela menina israelita? Por favor, ela é irrelevante, consulte os sábios da Síria, os doutores, mas uma menina, ainda mais escrava? A doença afetou seu cerébro Naamã, recomponha-se! Temos os melhores médicos aqui mesmo na Síria, porque dar ouvidos a esta menina?

Fico imaginando a autoridade daquela menina-missionária, que graça ela alcançou aos olhos do seu Senhor para dirigir-se a um general, um herói e dizer-lhe: “só há uma saída! E esta não está em suas mãos, nem na força de sua espada, nem mesmo em sua coragem, apenas em sua rendição àquele que pode vencer esta batalha”.

Uma menina-missionária que se tornou relevante no meio do palácio, ao redor de generais, reis, heróis e valentes… uma simples menina, mas com uma mensagem capaz de abalar as estruturas de homens conceituados, experimentados e embrutecidos pela guerra.

Pr. Ricardo Bitun

Graduado em Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Sociologia, pela PUC-SP. É Pastor da Igreja Evangélica Manaim, em São Paulo 0000000000