As Escrituras nos mostram o especial cuidado de Deus com a relação entre as gerações. O Deus Eterno, infinito, que não está submetido às leis temporais, sabe que o homem criado é finito, passageiro, nas palavras do Salmista Davi, no Salmo 103: “Sua vida é como a erva, ele floresce como a for do campo. Quando o vento passa, desaparece, e ninguém sabe para onde foi.”.

Entendendo a curta existência humana, ao se relacionar com o homem Deus estende o seu olhar não apenas para o homem de agora, mas também para sua descendência, e futuras gerações. Foi assim na aliança de Deus com Noé e seus filhos: “Faço agora a minha aliança convosco E COM A VOSSA DESCENDÊNCIA” (Gn 9.9).

O mesmo padrão se segue à aliança de Deus com Abraão: “Firmarei minha aliança contigo e com tua descendência, como aliança perpétua em suas futuras gerações, para ser o teu Deus e o Deus da tua descendência” (Gn 17.7). Enquanto Noé e Abraão podiam estar preocupados unicamente com os desafios que cercavam o seu tempo, como com a sua própria sobrevivência e prosperidade, o Deus Eterno ressaltava que a aliança não se restringia ao tempo presente, mas abrangia as futuras gerações.

Quando Deus se apresenta a Jacó, o Enganador, em Betel, apresenta-se como o Deus das gerações passadas, e também das futuras: “Eu sou o Senhor, o Deus de teu pai Abraão e o Deus de Isaque; darei a ti e à tua descendência esta terra em que estás deitado” (Gn 28.13).

Quando Deus institui a Páscoa, por ocasião da saída do povo de Israel do Egito, esta festa é estabelecida não somente para aqueles que estão vivendo aquele momento, mas para todas as gerações seguintes (Êx 12.14,24). O rito estabelecido deve provocar a curiosidade e o interesse das próximas gerações: E quando vossos filhos vos perguntarem: Que significa este ritual? Que culto é esse o vosso? (Êx 12,26). Então será a oportunidade de os pais testemunharem aos filhos, de uma geração transmitir a outra geração os feitos do Deus Eterno!

No Salmo 135 o Salmista afirma que a memória do Senhor passará de geração em geração (Sl 135.13).

O ministério de Jesus é caracterizado por sua preocupação com as futuras gerações. Quando os discípulos repreenderam as pessoas que traziam crianças para que Jesus as tocasse, o Mestre indignou-se com eles, e disse-lhes: Deixai as crianças virem a mim e não as impeçais, porque o reino de Deus é dos que são como elas… e os abençoou (Mc 10.13-16).

O apóstolo Paulo, porém, é o maior exemplo neotestamentário de preocupação com as gerações, e o relacionamento entre elas. Na sua primeira viagem missionária, o jovem João Marcos é o aprendiz que o acompanha. Na segunda viagem missionária ele requisita em Listra um jovem de bom testemunho, Timóteo para que seja seu auxiliar na jornada. Na terceira viagem missionária, o jovem médico grego Lucas, o acompanha, além do próprio Timóteo.

Paulo depositava grande esperança na juventude do pastor Timóteo, e exortava a todos para que ninguém o menosprezasse por ser jovem. Em contrapartida, Timóteo era desafiado a ser o exemplo para os fiéis, na palavra, no comportamento, no amor, na fé e na pureza (I Tm 4.12).

Paulo preocupa-se com as gerações dentro da igreja. Essa preocupação é expressada pelo apóstolo na carta a Tito, pastor da igreja de Creta.  Velhos, mulheres mais velhas, mulheres mais novas, jovens, a todos Paulo orienta a Tito sobre como exortá-los (Tt 2.2-7). O apóstolo preocupa-se com cada geração representada na Igreja de Creta, e o relacionamento entre essas gerações.

Na sua última carta, endereçada exatamente a alguém da nova geração, o jovem pastor Timóteo, Paulo mais uma vez demonstra o seu cuidado com a transmissão da doutrina às próximas gerações:  E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros (II Tm 2.1-2). Somos hoje, após 20 séculos de história da igreja, resultado de gerações que tiveram o cuidado de transmitir a fé cristã às próximas gerações.

Nos tempos bíblicos a relação entre as gerações era mais harmônica e respeitosa. Os jovens não se sentiam diminuídos ao sentarem e aprenderem com os mais velhos. Os mais velhos, por sua vez, sentiam-se valorizados e honrados ao repartirem sua experiência e saber com as novas gerações.

Os tempos mudaram. A harmonia entre as gerações cedeu lugar à desconfiança, ao menosprezo. Jovens desdenham os velhos por serem desatualizados (tecnologicamente) e ignorantes; incapazes de acompanharem as alterações e mudanças dos novos tempos.  Velhos por sua vez, apegam-se tenazmente às experiências passadas, aos seus tempos áureos, à disposição e destemor de sua geração e olham com desconfiança e desesperança para as novas gerações.

O presente desafio da Igreja é integrar essas gerações. Os velhos não podem olhar com desdém os jovens, nem os jovens podem menosprezar os velhos. A desarmonia entre as gerações resulta no desperdício da força da juventude, e da notável experiência dos velhos.

Em seus 105 anos de sua história, a Igreja Assembleia de Deus no Ceará tem demonstrado capacidade de integração das gerações, seguindo a orientação paulina. É essa relação de complementaridade e não de competição que tem assegurado a continuidade dessa igreja centenária.

O trabalho com crianças é uma marca da nossa igreja. As crianças são introduzidas na vida da igreja desde a mais tenra idade. Continuam como adolescentes, e passam a integrar o ministério da juventude. Esses jovens muito precocemente passam a pregar a testemunhar, a compartilhar de Jesus. E assim, as novas gerações vão a seu tempo se preparando para assumir o lugar das gerações anteriores.

Uma preocupação da atual diretoria da IEADTC é o preparo e encaminhamento da nova geração de obreiros e líderes. Esse posicionamento estratégico não é uma opção, não é uma possibilidade, é uma necessidade premente.

Muitos de nossos pastores agiram e tem agido como o apóstolo Paulo: Ao observar um jovem com característica de ser portador do chamado de Deus, ainda que apresentem a inconstância da juventude, ou a impaciência da mocidade, acolhem, orientam, incentivam sua trajetória ministerial e os encaminham nos desafios da liderança cristã.

Pastor Antônio José era muito jovem, e como músico e maestro, foi convocado pelo Pr. Emiliano Ferreira da Costa para dirigir a congregação de Granja Portugal, e posteriormente a assumir o Campo de Juazeiro do Norte.

Pastor Messias de Castro era adolescente ainda, quando foi chamado, também pelo Pr. Emiliano, para pregar num culto de domingo aqui no Templo Central.

Nossos pais nos ensinaram a não nos sentirmos enciumados com o desenvolvimento e crescimento das novas gerações. Fomos acolhidos por eles, empurrados para mais além, por eles. É isso que aprendemos, é isso que precisamos continuar fazendo.

Não podemos ser uma igreja por faixa etária. Precisamos ser uma igreja que agregue as gerações. E as novas gerações desejam ser integradas, desejam contribuir, desejam demonstrar seu potencial e garra.

Eis o desafio que temos para refletir nos próximos dias: Gerações! Uma geração é responsável por transmitir à outra o repertório de experiências, de vivências de fé, de temor ao Senhor. Uma geração fala a outra geração do Deus que caminha conosco. Não adianta cada um se entrincheirar e acusar a outra geração de incompreensão, isolamento, egoísmo. Abramos nosso coração, e reconhecendo as peculiaridades da nossa geração, aprendamos juntos, cresçamos juntos, pois acima de todas as coisas, o Nome do Senhor será glorificado!

Eziongeber Vieira