Argumentos contra o segundo casamento.

Qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério. Mateus 19.9 

Introdução

Alguns dizem que o texto acima permite tanto o divórcio como o segundo casamento. Esse  posicionamento é conhecido como “erasmiano” e tem como base a confissão de Fé de Westminster. Além de ser o mais popular entre os evangélicos de hoje, parece ser o de melhor compreensão. Mas, quando é estudado com detalhes, não é tão claramente conclusivo. E uma vez que este posicionamento é o defendido pela maioria das igrejas evangélicas, é importante que seja examinado cuidadosamente. Veja o  que diz John Stott, em as Grandes questões sobre SEXO, no seguinte texto.

O divórcio e o novo casamento são permissíveis (não imperativos) sobre duas bases. A primeira  é aquela em que há uma parte inocente e outra culpada de imoralidade sexual. Em segundo lugar, o cristão pode concordar com a deserção no caso de este se recusar a viver com ele ou com ela. Entretanto, em ambos os casos a permissão é concedida em termos negativos e relutantes. Somente querendo alguém se divorciar sobre o fundamento de infidelidade conjugal é que o recasamento não resulta em adultério. Somente se a parte não cristã insiste na não convivência é que a parte cristã “não está mais sujeita¹.

Erasmo, um amigo de Martinho Lutero, defendia a ideia do divórcio e o novo casamento da parte inocente em casos de adultério ou deserção. Essa interpretação tinha o nome técnico de, segundo E.J. Ehrlich, “Ficção legal” uma vez que o adúltero era tratado “como se estivesse morto.” Este é o tipo de pensamento  que divulgou  a doutrina do cônjuge inocente.

Alguns simpatizantes do posicionamento do divorcio e novo casamento permitidos dizem que a regra geral do divórcio seriam os versículos de Marcos 10.10-12  e Lucas 16.18 e que a exceção seria os versículos de Mateus 5.31-32 e 19.3-9.  Já para o cônjuge desertor (no casamento misto), a exceção, seria  o texto de I coríntios 7.15.

 

Primeiro argumento –  O  contexto histórico da Igreja Primitiva não permitia o segundo casamento.

Realizando um estudo minucioso dos manuscritos, através cinco primeiros séculos  mostrou, que com apenas uma exceção (Ambrosiaster, escritor latino do quarto século), que os pais da igreja eram unânimes em concordar com o ensino de Jesus  Cristo e Paulo no seguinte posicionamento:  Se um cônjuge sofresse a infelicidade de um divórcio, um novo casamento não era permitido qualquer que fosse o motivo².

Segundo Craig Hill, esse ponto de vista permaneceu até o século XVI, quando Eramus Desiderius  introduziu um entendimento totalmente diferente daquele dos pais da igreja. Existia muitos nomes como: Hermas , Justino, Teófilo de Antiorquia, Irineu, Cremente de Alexandria e Orígenes, todos condenavam abertamente o novo casamento. Tem-se o testemunho de muitos teólogos gregos conhecidos, como Basílio ,Gregório de de Nazianzo, Apolinário, Teodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo , todos mantinha uma posição tradicional de que os Evangelhos não permitia o novo casamento após o divórcio.

Diante desse quadro vemos que o testemunho da igreja primitiva indica,  pelos  textos, não existir  casamento após o divórcio.

Agora a grande pergunta : “ O que faz melhor sentido a visão Erasmiana que permitia o novo casamento após o divórcio ou a visão da igreja primitiva que não permitia o segundo casamento após o divórcio?

Segundo argumento – A palavra  APOLYEIN

Outro argumento para não haver segundo casamento, contra o posicionamento erasmiano, era a palavra grega usada por Jesus no versículo acima (Mt 19.9), apolyein que sempre  significava “separado de” .

É o contexto que deve decidir a o significado exata da palavra  em cada caso. Quando Jesus fala de apolyein ele está falando apenas de separação sem o direito de se casar de novo: é o único sentido que se encaixa no contexto.

Resumidamente, se aceitarmos que Jesus está usando apolyein em um sentido diferente dos fariseus, que ele quis dizer “separado”, mas eles diziam, que  significavam “divórcio”, isso não é um motivo forte para acusá-lo ou Mateus  de ser obscuros? De modo nenhum.

Terceiro argumento a confissão de Fé de Westminster (CFW)³.

Abaixo um trecho que se refere a questão do segundo casamento na confissão de Fé de Westminster.

CAPÍTULO XXIV DO MATRIMÔNIO E DO DIVÓRCIO

V.O adultério ou fornicação cometida depois de um contrato, sendo descoberto antes do casamento, concede à parte inocente, justo motivo de dissolver aquele contrato (Mt 1:18-20). No caso de adultério depois do casamento, é lícito à parte inocente propor divórcio (Mt 5:31,32), e depois de obter o divórcio casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta (Mt 19:9; Rm 7:2,3).

Com base no versículo de Mateus 19.9 , acima,  observa-se que o primeiro erro da CFW diz respeito ao uso intercambiável de “adultério” e “fornicação”. Ela cita os dois pecados como se fossem um só, quando, na verdade, são pecados de um mesmo gênero, mas de espécie diferentes .

O segundo erro diz respeito às novas núpcias por parte da pessoa inocente, aquela que foi a vítima da infidelidade sexual.  É citado junto  na CFW, Rom 7.2,3:

“Por exemplo, pela lei a mulher casada está ligada a seu marido enquanto ele estiver vivo; mas, se o marido morrer, ela estará livre da lei do casamento.
Por isso, se ela se casar com outro homem enquanto seu marido ainda estiver vivo, será considerada adúltera. Mas se o marido morrer, ela estará livre daquela lei, e mesmo que venha a se casar com outro homem, não será adúltera.”

O grande equívoco aqui, ao fazer uso da ilustração tirada do matrimônio entre um homem e uma mulher, está falando de morte no sentido físico, literal. A palavra  está dizendo: “Mas, fazendo de conta que o marido está morto, a mulher está livre para casar”. Na realidade  Paulo está falando de morte real e não fictícia .  Da mesma forma   a morte em 1 Coríntios 7.39, a qual é a única que dissolve o laço do casamento, de forma que a pessoa casada pode se casar com outra, é uma morte real e física – morte que dissolve toda ligação com a terra, morte que coloca o  homem na sepultura.

Embora esse ensaio tenha se concentrado em mostrar que o novo testamento, através da cláusula de exceção, em nenhum lugar  aceita o segundo casamento após o divórcio , não podemos perder o contexto muito positivo  que no é dado por Jesus, de Mateus  19 .1-7 , sobre a estabilidade do casamento e não aceitação do que pretendia os Fariseus na época  da Igreja Primitiva.

Em Cristo porque Ele Vive !

 

 Antônio Sérgio Costa Lima – Pastor Auxiliar da IEADTC, Coordenador do Ministério da Família do Templo Central, Bacharel em Teologia pela UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO.

 

 

 

Referencias Bibligráficas.

¹Hill,Craig. Casamento: Contrato ou Aliança? Bless Gráfica, Editora e Comunicação LTDA, Pompéia – São Paulo, 1992

²Stott,John . Grandes Questões sobre SEXO. Vinde Comunicações. Niterói –RJ. 1993.

³ Confissão de Fé de  Westminster( CFW) – O parlamento da Inglaterra, sentindo que o país, política e  religiosamente separado de Roma, precisava de uma religião estatal sistematizada, que servisse de parâmetro oficial de fé e comportamento ético aos seus cidadãos, convocou uma Assembléia ( de julho de 1643 a fevereiro de1649 ), que se reuniu na Abadia de Westminster, composta de cento e vinte clérigos, os seus melhores teólogos, mais dez membros da Casa dos Lordes, vinte da Casa dos Comuns e oito representantes puritanos ou puritarizados da Escócia, sem direito a voto. Estes exerceram influência decisiva1 . Foram eles que determinaram o conteúdo reformado e calvinista do documento contra o arminianismo, fortemente arraigado, especialmente nos seguimentos populares. O antropocentrismo arminiano favorece a crença dos social e intelectualmente desfavorecidos, pois coloca a salvação no âmbito das possibilidades humanas mediante esforço místico, privações econômicas e renúncias dos prazeres sensoriais, sendo-lhes a fé, não um dom da graça, mas uma virtude natural pela qual se conquista a benemerência divina da redenção