O cuidado pastoral, muitas vezes, é vinculado à igreja local, no contexto do cuidado do rebanho. Contudo, esse cuidado precisa ir além dos membros comuns e incluir os missionários, estejam eles no campo ou em sua terra natal por algum motivo. Deve abranger adultos e crianças, de candidatos a aposentados, os que plantam igrejas e os que trabalham no escritório central.  Em outras palavras, esse trabalho é de suma importância, se a igreja quer mesmo ter um trabalho eficaz e duradouro na Grande Comissão de Cristo.  Cuidado pastoral, pode ter sentidos diferentes para as pessoas, mas geralmente engloba os seguintes aspectos: compreensão das necessidades específicas dos missionários, orientação, aconselhamento, comunhão, comunicação, amizade, visitas, assistência em crises, oração, encorajamento e reconhecimento.

O missionário não é um herói, mas um ser humano com carências, dores e dificuldades. No afã de resultados pouco se cuidou da pessoa do missionário. Ele precisa de uma retaguarda cada vez mais eficiente, de apoios espiritual e material. Quando são enviados à missão, deve-se fazer visitas regulares aos missionários no campo, especialmente nos primeiros anos, pois eles também precisam de cuidado pastoral. Durante essas visitas, ouvimos os missionários, acompanhamos seus progressos e suas dificuldades, sejam elas de relacionamentos e de adaptação ao campo, ajudando-os e encorajando-os a encarar a situação de maneira diferente e, assim, a superar todos os desafios. A grande dificuldade encontrada é a tendência de que os missionários têm de esconder seus problemas, porque se sentem obrigados a ser um sucesso. Orientamos, então, que devem reservar um dia por semana para cuidar de sua vida pessoal, especialmente de sua vida com Deus. Sem falar dos momentos devocionais diários, que não devem ser negociados, mesmo debaixo das pressões do campo e do ministério. Proporcionamos um recurso extra de $100.00 (100 dólares) por mês, por filho, para ajudar na educação dos mesmos

Proporcionamos férias anuais no país que atuam ou num país vizinho e, a cada três anos, retornam aos seus países de origem por um período de três meses. No primeiro mês, eles descansam, reveem os familiares e fazem um check-up para a manutenção da saúde; nos dois meses restantes, visitam as igrejas parceiras, relatando o que o Senhor realizou e promovendo a conscientização missionária. Entretanto, temos tido a prudência de não deixar que a agenda do missionário seja tão pesada e, assim, possam ser cuidados, acolhidos, pastoreados, a fim de encontrarem descanso, restauração e encorajamento.

No Curso de Missões por correspondência, lição 01, introdução a missões da EMAD, diz: “se queremos ver o mundo alcançado pelo evangelho, então temos que investir nos obreiros que estão no seio da Igreja e enviá-los aos perdidos   e acompanhar o trabalho e a vida do missionário”. Para isso, foi realizado ou elaborado diretrizes para as Igrejas Assembleias de Deus em todo o Brasil. Cito apenas três:

  • Às igrejas competem: selecionar, enviar, sustentar e acompanhar as atividades e ações dos missionários;
  • Devem promover a oração missionária sistemática e intercessória em favor da obra missionária; antes de qualquer ação por missões, a igreja deve orar. João Wesley disse: “Deus não faz nada senão em resposta de oração.”;
  • Devem dar apoio financeiro à obra missionária; isenta de motivação periódica e emoções momentâneas, a capitação de recursos financeiros para missões deve ser sistemática e sacrificial. Peter Marshall disse:  “Contribua de acordo com a tua renda para que Deus não torne tua renda segundo a tua contribuição”.

 

O cuidado pastoral é um dos aspectos mais importantes no cuidado integral do missionário. Podemos conceituar cuidado integral como: o investimento intencional e permanente do missionário em si mesmo, da igreja enviadora e da agência em todas as dimensões (espiritual, emocional, físico, familiar, educacional e financeira) da vida do missionário e durante todas as fases da carreira missionária (processo de seleção, preparo e treinamento pré- campo, envio e chegada ao campo, a execução do projeto, mudança ou transferência e desligamento ou aposentadoria). Tudo isto contribui para que ele seja uma pessoa saudável no cumprimento do seu ministério.

Neste processo de cuidado, é de grande importância a comunicação entre o enviado e a enviadora, em At 14.27,28, vemos que o apóstolo Paulo voltava regularmente à igreja de Antioquia (que enviou Paulo e Barnabé na 1ª viagem missionária) para relatar quão grandes coisas Deus fizera por eles e como abrira aos gentios a porta da fé. Quando o Apóstolo Paulo convida a igreja em Roma para “encaminhá-lo” à Espanha (Rm 15.24), seu desejo é que ela se torne sócia do empreendimento missionário. O termo que ele usa inclui tanto um apoio moral e geral quanto uma participação integral  no projeto “indo juntos” ao campo missionário. Na época, não tinha sistema bancário internacional, nem fácil envio de recursos, o que existia eram várias igrejas que ajudavam o missionário no caminho.

A igreja que mais ajudou o apóstolo foi a de Filipos. Agradecido, Paulo, envia uma carta de reconhecimento que flui do seu coração onde trata os membros como amigos íntimos, veja-se: “Agradeço ao meu Deus toda vez que me lembro de vocês. Em todas as minhas orações em favor de vocês, sempre oro com alegria por causa da cooperação que vocês têm dado ao evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou convencido de que aquele que começou a boa obra em vocês vai completá-la até o dia de Cristo. É justo que assim me sinto a respeito de vocês, uma vez que tenho em meu coração, pois, quer nas correntes que me prendem quer defendendo e confirmando o evangelho, todos vocês participam comigo da graça de Deus. Deus é minha testemunha de como tenho saudades de todos vocês, com a profunda afeição de Cristo Jesus.” (Fl 1. 3-8).

Precisamos servir bem aos que servem, para que cumpram o tempo acordado no campo missionário. No Brasil, a taxa de retorno prematuro é de 7% ao ano. As cinco principais causas são: o treinamento inadequado; a falta de sustento financeiro; falta de compromisso; fatores pessoais, como baixa autoestima e esgotamento e problemas com colegas. As principais causas de perdas estavam relacionadas com  problemas de caráter e não com limitações de habilidade. Portanto, quanto melhor o preparo, mais tempo permanecem no campo.

A Dra. Antonia Leonora diz: “O preparo cultural do missionário é a chave para uma boa adaptação, integração no campo e o bom êxito do seu ministério”. A preparação não elimina automaticamente os problemas de adaptação, mas diminui o impacto dos mesmos, deixando o missionário mais sensível à realidade. Quando começa o preparo do missionário? Na igreja, evidentemente, mas continua com o curso teológico e na escola de missões. A igreja deve cumprir o seu papel de preparar e indicar pessoas qualificadas para estudarem e serem enviadas ao campo. Raramente, pensa-se na igreja como lugar de preparo. No entanto, ela deve ser o primeiro seminário do missionário; depois, o preparo formal.

Quanto ao choque cultural, todos sofrem numa pequena ou grande escala. Ao se exporem a uma nova realidade cultural, os missionários sofrem o impacto. Este diz respeito ao sentimento de inadequação, confusão mental e outros sintomas que podem ser percebidos quando o sujeito se depara com uma cultura diferente da sua. O idioma, os costumes e os princípios do novo grupo podem gerar tanta surpresa que o estrangeiro não consegue se adaptar à outra sociedade.

A fase crítica vai do primeiro até o sexto mês. Contudo, os obreiros sofrem mais intensamente nos primeiros trinta dias (embora haja exceções). O choque cultural é inevitável, pois cada pessoa tem que aprender logo o modo de lidar com a nova vida e suas nuances. Criamos “mapas” mentais que nos conduzem desde sempre. Quando entramos em uma nova cultura, nossos “roteiros” são ineficazes e não dão conta das demandas. Assim, cedo ou tarde, o sentimento de não pertencimento pode prejudicar profundamente a vida da pessoa, causando, inclusive, doenças, caso a situação de estresse seja mais intensa do que a capacidade de lidar com o choque e suas consequências.

Apesar do mundo ter se tornado uma grande aldeia global, alguns missionários vão ao campo sem a menor noção do idioma, o que é inadmissível, já que as igrejas não devem enviá-los com este despreparo, pois o idioma será o seu principal instrumento do trabalho do missionário. Se ele não pode se comunicar satisfatoriamente, não poderá alcançar os seus objetivos. Diligência e perseverança são duas palavras-chaves para quem pretende aprender língua e cultura tão diferentes da sua, e nós sabemos que sem esse aprendizado não haverá a comunicação efetiva do evangelho.

O cuidado da igreja deve abranger toda a família: os pais precisam saber quais são as oportunidades de estudo para os filhos, quais os custos, o que é mais apropriado para as crianças e receber orientação para fazer um planejamento cuidadoso.

Algumas pessoas confundem supervisão e cuidado pastoral.  Todavia, são coisas distintas. É natural que o trabalho feito por um supervisor se concentre em questões administrativas ou funcionais, e não, em cuidado pastoral. A visita de um supervisor ao campo, geralmente, é usada para verificar como as coisas têm sido feitas. Muito raramente, um supervisor separa tempo para indagar sobre o bem-estar da família do missionário ou os problemas que o casal de missionários pode estar enfrentado para educar seus filhos. É claro que a supervisão é necessária para garantir que o trabalho atribuído a cada missionário seja concluído com sucesso, mas, a longo prazo, o trabalho pastoral é ainda mais importante que a supervisão e requer líderes de campo voltados para pessoas e, não, só para alvos.

Como igreja da última hora, cuidemos bem dos nossos missionários, para que estes possam alcançar e cuidar dos povos ainda não alcançados e, assim, Deus seja glorificado.

 

Pela causa do Salvador!

Pr. Paulo Roberto Leitão Melo