“Resolução de Conflitos” é um tema frequentemente negligenciado nas igrejas e organizações. De acordo com G. W. Garvin, “Saber resolver conflitos é um dos princípios mais importantes no crescimento da igreja”. Logo no início da vida cristã, apesar de surpresos, descobrimos que a igreja não é um lugar perfeito, sem conflitos, pelo contrário, o nível de raiva, inimizade e antagonismo é semelhante a vários outros grupos sociais. A não ser que tenhamos uma forte capacidade relacional, estaremos constantemente vulneráveis a eles. Por outro lado, o bom treinamento na resolução de conflitos será a melhor medicina de prevenção contra o crescimento do conflito destrutivo e poderá salvar o ministério, profissão e até mesmo a família e o casamento. A maneira pela qual os cristãos se comportam diante do conflito é crítica e tem consequências espirituais. Aquele que diz que tem a luz, mas continua odiando o seu irmão permanece nas trevas (1 Jo 2.9). Aqui estão algumas sugestões para a resolução de conflitos:

  • Aproxime-se do conflito como uma oportunidade ao invés de fugir dele.

 Comece a ler sobre o assunto (não apenas como defender os seus argumentos) e, se possível, busque treinamento específico. Dê todos os passos necessários para resolvê-los. Não tente ignorar, negar ou simplesmente não fazer nada. Isso será destrutivo para todo o grupo. O problema não irá desaparecer e poderá se agravar. Líderes maduros precisam enxergar conflitos como algo natural. Reconheça que os conflitos são oportunidades construtivas para crescimento pessoal, interpessoal e congregacional. Não joguemos o problema para debaixo do tapete. O conflito não precisa ser uma experiência negativa, destrutiva e dolorosa. Deus está engajado na sua redenção.

  • Estabeleça regras claras para o processo, ou seja, diretrizes iniciais de engajamento no conflito.

Esforce-se para engajar-se num objetivo em comum. Pessoas que estão a tempo discutindo e em desacordo precisam manter algumas regras:

  1. Lembre-se: todo o tempo que somos irmãos e irmãs na fé e que Deus ama a todos igualmente
  2. Comprometa-se a ouvir atento e respeitosamente quando outro irmão estiver falando, evitando interrupções ou respostas imediatas.
  3. Evite uma postura de adversários. Ao invés disso, busque resolver problemas e fazer o que for o melhor para a comunidade de fé.
  4. Concorde em receber e ponderar sobre as novas informações e objetivos que possam ajudar a compreender melhor a situação.
  5. Tente focar e discutir os temas em debate, evitando ataques pessoais e dispersando comentários acerca das atitudes e perspectivas dos outros.
  6. Concorde com uma comunicação direta, evitando triangulações (fulano falando com beltrano ao invés de diretamente com o ciclano com quem não concorda e A reclamando de B para C) e falando por trás sem que a pessoa esteja presente para se defender.
  7. Confie que Deus está trabalhando e pelo Espírito Santo o capacitará a encontrar alternativas criativas para que todos cheguem num consenso sem que ninguém precise abrir mão das suas convicções centrais e valores- chave.
  • Mantenha-se longe da mentalidade certo-errado.

Não culpe a si mesmo, nem seus oponentes. Reconheça sua participação no problema. Confesse sua parte, sua dificuldade, bem como o seu desejo por mudança. Nenhum de nós pode garantir que o conflito será resolvido construtivamente. Mas devemos prevenir a mentalidade de Vencedor – Perdedor, mantendo sempre aberta a possibilidade de concluirmos como Vencedor – Vencedor.

  • Focalize os interesses e não nas posições e argumentos.

Interesses são os desejos e preocupações das partes envolvidas. São as ondas invisíveis por trás das opiniões. Por trás de posições opostas, residem mais interesses comuns que opostos. Ninguém deseja ser vítima de ninguém. Busque trabalhar as diferenças uns com os outros e busque o bem comum de todos.

  • Busque compromisso aos princípios ao invés de opiniões rígidas.

Envolva todos os lados em argumentos e ouça cuidadosamente cada um para que os interesses reais da pessoa estejam claros. Invente opções que sirvam para o ganho mútuo. Geralmente no conflito buscamos nos posicionar como vencedor ou perdedor. Invente opções (brainstorming) criativas onde as pessoas vejam a possibilidade de saírem todos vencedores. Em situações complexas, a criatividade é absolutamente necessária. Busque os interesses compartilhados. Busque tornar as decisões fáceis.

  • Focalize nos temas e não nas pessoas.

Animosidade e ressentimento pessoal são geralmente temas diferentes do conflito simples e necessitará de aconselhamento ou terapia ao invés da aplicação dos princípios de resolução de conflitos. Todos têm valor e não são defeituosos. Fizemos algo ruim, mas somos pessoas redimidas. Podemos nos sentir culpados, mas não somos indignos. Separe as pessoas dos problemas. Lide com as pessoas, como pessoas e com os problemas, como problemas. Lide com o problema e mantenha os relacionamentos.

  • Resista soluções mágicas: achando que tudo ficará bom e perfeito.

Não faça barganhas sobre os resultados. O objetivo é a unidade da igreja e não conseguir o melhor acordo e o melhor resultado para o seu grupo. Esta é a forma de Jesus: perdão, aceitação e reconciliação. Lembre-se que o seu compromisso principal é a causa de Cristo.

  • Insista em critérios objetivos, custos, alvos, metas e estratégias racionais.

Discuta todos os temas. Todo conflito tem vários tópicos e não somente um aspecto. Todos têm percepções diferentes que fazem sentido para suas perspectivas e interesses. Faça uma lista dos temas em conflito em grupos pequenos, participativos, com relatores. Indique quais são as opções e para lidar com cada um deles. Pense em como vocês juntos resolverão os problemas.

  • Busque reduzir o medo e ansiedade,

Comunique eficazmente sentimentos, dando voz às reclamações, especialmente àquelas acompanhadas de sentimentos negativos. Cuidado com o espírito latino de emoções desenfreadas e liberadas. Por outro lado, quando desencorajamos fazer isso, os sentimentos ficam escondidos e apodrecem. Um processo ético para lidar com o conflito deve buscar minimizar a pecaminosidade e maximizar a bondade.

  • Inclua todos os influenciados pela decisão no processo de decisão.

Diferentes perspectivas filosóficas ou teológicas sobre assuntos diversos devem ser aceitas como oportunidades para ouvir a liderança do Espírito Santo. No conflito, eu posso e devo mudar a mim mesmo. Outras pessoas e grupos podem e devem mudar eles mesmos. Eu não posso demandar mudanças de outro, apenas Deus pode fazer isso. Ninguém consegue mudar ninguém. Administrar o conflito é um processo comunitário. Não podemos tentar conduzi-lo sozinhos. Aceitar a diversidade. Respeite as diferentes esperanças, medos e sentimentos que as pessoas têm e seus vários valores e opiniões. Confie no processo do grupo diante de Deus, debaixo da influência do Espírito Santo. Quando necessitar, procure a ajuda de pessoas externas / pastores com experiência na área de reconciliação e mediação.

Dr. Rubens Muzio

Teólogo, Mestre em Teologia Pastoral pelo Calvin Seminary, em Michigan e Doutorado pelo Westminster Seminary, na Filadélfia, Pastor Presbiteriano, Missionário da Sepal e Escritor.