A expressão doutrina vem do latim “doctrina” e do verbo “docere” e significa ensinar, instruir e educar. Na teologia, indica o conjunto de princípios que formam a base de um sistema religioso[1]. Paulo fez orientações a Timóteo sobre o zelo com a doutrina: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas” (1Tm 4.16). O Comentário Bíblico Pentecostal, explica o seguinte:

O autor não quis dizer que o próprio ministério, mesmo envolvendo muita dedicação, fosse o verdadeiro agente da salvação. Só Deus salva; contudo, sua salvação só pode entrar em vigor através da fiel pregação e ensino, e esta é uma verdade que nenhum ministro ousa esquecer[2].

É possível perceber no texto a responsabilidade do Ministro em três perspectivas: cuidar de sua própria vida espiritual, dedicar atenção especial à doutrina e perseverar firme nesse propósito. A preocupação do apóstolo repousa no fato de que virá tempo em que os ouvintes não sofrerão a sã doutrina” (2Tm 4.3). Por isso o enfático alerta para “pregar a palavra, redarguir, repreender e exortar, a tempo e fora de tempo” (2Tm 4.2). Desse modo, o compromisso do obreiro fundamenta-se no ensino da doutrina ortodoxa, isto é, aquela alicerçada na “fidelidade absoluta à Bíblia Sagrada, rejeitando categoricamente as tradições… que não se encontrem na Palavra de Deus”[3].

Essa incumbência tornou-se um desafio em nossa sociedade. O relativismo cultural despreza as leis divinas e condiciona à verdade a consciência humana considerando tudo igualmente válido[4]. Esse conceito adentrou na Igreja e até as Escrituras vêm sendo questionada, a fim de acomodar grupos que se recusam abandonar o pecado. O patrulhamento ideológico também oferece resistência às doutrinas bíblicas. O método é desqualificar e estigmatizar quem faz oposição às ideologias de nosso tempo. Como resultado, o Evangelho é por vezes controlado pelas grades do “politicamente correto”.

Já na Idade Média, Lutero ensinou que a cultura ou a tradição não podem estar acima ou ser equiparada com a autoridade das Escrituras. Em sua tese 54, escreveu: “ofende-se a Palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela[5] e mais adiante na tese 62, asseverou “o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus[6]. A partir daí, para os protestantes as Escrituras são determinantes para a formulação da doutrina. O reformador Armínio (1560-1609) igualmente defendeu a centralidade da Palavra de Deus:

“elas merecem obediência, pela credibilidade conferida a elas, quando ordena ou proíbe alguma coisa […] A autoridade de qualquer palavra ou texto depende de seu autor […] Deus é de infalível veracidade […] Ele é o autor das Escrituras, a autoridade delas depende total e exclusivamente dEle”[7].

Nesse diapasão, a doutrina pentecostal alicerçada no texto das Sagradas Escrituras, ensina que toda e qualquer prática precisa passar pelo crivo da Palavra de Deus (Hb 4.12). Combate “a elevação da tradição a um status igual ou até mesmo superior das Escrituras”[8]. E a “Declaração de Fé” se opõe aos modismos e às falsas doutrinas em busca da unidade do pensamento teológico. Na abertura do “cremos”, o artigo de fé número um declara crer “na inspiração divina verbal e plenária da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé e prática para a vida e o caráter cristão”[9].

Por conseguinte, mercê da relevância da sã doutrina, a Igreja carece de pregadores, cujos sermões expressem a genuína verdade bíblica e não a opinião, parecer ou ideias de nossa época. O cânon sagrado deve ser usado como padrão pelo qual todo o comportamento humano deve ser avaliado. Temos convicção que a “Bíblia transmite com precisão à humanidade o pensamento de Deus”[10]e professamos que a Palavra de Deus é fiel e digna de toda aceitação (1Tm 4.18).

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Douglas Roberto de Almeida Baptista. Doutor em Teologia Sistemática, Mestre em Teologia do Novo Testamento, Mestre em Ciências das Religiões, Pós-graduado em Docência do Ensino Superior, Especialista em Bíblia Graduado em Teologia, Pedagogia, Filosofia e Educação Religiosa. Líder da Assembleia de Deus de Missão do Distrito Federal e do Conselho de Educação e Cultura da CGADB. Comentarista das Lições Bíblicas para Adultos da CPAD.


[1]ANDRADE, Claudionor C de. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 151.

[2]ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 1471,1472.

[3]ANDRADE, 2004, p. 152.

[4]CARL, Henry (Org). Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 509.

[5]FERREIRA, Paulo. A Reforma em quatro tempos. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p. 87.

[6]Ibid., p. 88.

[7]ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. vol. 1. p. 364.

[8]COMFORT, Philip Wesley. A Origem da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 68.

[9]CGADB. Declaração de Fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 13.

[10]TRASK, Thomas E. De volta para a Palavra. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p. 15.