“Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos. Um porém, chamado Cleopas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias? Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo”

Lucas 24: 17-19

O texto dos discípulos no caminho de Emaús nos ajuda a compreender a percepção que eles tiveram da vida e ministério de Jesus. Neste encontro, o Senhor já havia cumprido o seu ministério na terra, já havia ressuscitado e preparava-se para manifestar-se aos discípulos. Podemos entender a descrição que Cleopas fez do Mestre como uma espécie de “resumo” da visão que tinha acerca dele, do legado por ele deixado. E como foi que os discípulos definiram Jesus? Quais os aspectos da sua vida e ministério, depois de tudo dito e feito, ficaram evidentes? Jesus foi definido como “varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo”.

Como deve ser reconhecida a Igreja, Corpo de Cristo na terra? Da mesma forma que Jesus, a Igreja, tanto na sua dimensão universal quanto nas suas mais diversas manifestações locais, deve também ser reconhecida como poderosa em obras e em palavras, diante de Deus e de todo o povo. Isso traz implicações ministeriais de serviço tanto nas esferas espirituais e devocionais (“diante de Deus”), quanto nos serviços comunitários e de testemunho através da proclamação, sinais, atos de justiça e obras (“e de todo o povo”). Nosso chamado é servir aos homens, em nome de Deus.

Por diversas razões históricas que culminaram numa leitura específica e equivocada das Escrituras e numa missiologia reducionista, a Igreja tem se restringido, muitas vezes, a ser “poderosa em palavras”. Valorizamos o púlpito, o evangelismo, a proclamação, e defendemos a verdade absoluta, que expressamos verbalmente, mas nem tanto o serviço comunitário, a militância social, a ministração às necessidades físicas. Descremos num engajamento social e político e desconfiamos de qualquer forma de aliança ou parceria com outros atores sociais com vistas à transformação. Na vida pessoal, separamos o serviço “sagrado”, eclesiástico, espiritual, da atuação na vida profissional e comunitária, chamando-a de “secular”.

Nesta visão, que limita a missão à proclamação apenas, o nosso alvo final é a salvação de almas rumo a uma eternidade com Deus e, a evidência de êxito, é uma igreja cheia de gente. Uma prática missiológica estreita é um dos fatores que contribuem para uma igreja cada vez mais irrelevante: não há serviço comunitário; a igreja se torna um grupo de pessoas voltado para si; as manifestações de compromisso público e posicionamentos institucionais são apenas no sentido de defender os seus próprios interesses e não envolvem a sociedade como um todo, muito menos a denúncia das injustiças; os ministérios são desenhados para manter as estruturas da igreja e fazer com que elas funcionem bem, com pouca repercussão comunitária; a expressão vocacional

dos membros é consumida internamente nos ministérios eclesiásticos. Quase não há espaço para uma militância social e um engajamento transformacional ao nível de sociedade. Quando muito, são iniciativas individuais dos membros, pulverizadas e com pouco impacto efetivo; posicionamentos e ações de cunho social são considerados “menos importantes” ou secundários, muitas vezes tolerados e não empoderados pelas lideranças e, quando existem, estão desconectados do sentido da própria Missão da igreja, o cerne e o sentido a sua existência; o testemunho social e as obras de serviço comunitário são vistos como um “gancho” para o que “realmente interessa”: o evangelismo e a salvação das almas. O resultado desta incompreensão acerca da integralidade da mensagem evangélica gera uma série de consequências, como: projetos com resultados fracos, equívocos na condução e avaliação dos programas de intervenção, manipulação da comunidade, falta de prioridade estratégica e orçamentária etc.

Uma pergunta que cabe a todos nós, especialmente aos líderes eclesiásticos é: se sua igreja, num piscar de olhos, desaparecesse da comunidade onde está inserida, o que a comunidade ao redor ia achar disso?

Este tipo de questionamento gera diversas implicações práticas que precisarão ser respondidas, tais como: constitui uma boa mordomia dos recursos de Deus manter o templo da igreja fechado quase toda a semana e só abri-lo para atividades religiosas da congregação, não disponibilizando-o para a comunidade? O mesmo acontece com outros recursos dos quais a igreja dispõe? Quanto do orçamento da igreja é usado na implementação ou apoio a projetos de serviço comunitário, especialmente voltados aos mais necessitados? Participamos de algum movimento ou rede de advocacy, promoção de direitos, denúncia de injustiças etc.? Se pensamos num impacto comunitário efetivo, que tipo de governança precisamos ter? Estamos dispostos a valorizar os demais atores sociais da nossa comunidade e andar com eles em respeito e lealdade, sem abrir mão das nossas convicções, numa construção coletiva para a transformação da comunidade? Os ministérios eclesiásticos, ou seja, internos à igreja, e a participação nas atividades “religiosas” tomam todo o esforço e tempo dos membros, não deixando nada para o engajamento social? As atividades de militância sócio-política são consideradas “mundanas”? Apenas os ministérios “internos” são reconhecidos como tal e recebem apoio? A única forma legítima de servir a Deus é no serviço eclesiástico, cabendo à intervenção comunitária e à satisfação das necessidades físicas das pessoas um papel apenas secundário?

Entendo uma igreja relevante como uma grande empoderadora de vocações para a obra de transformação integral. Se pensamos em reforma social, especialmente em uma sociedade complexa como a nossa, precisamos compreender as diversas esferas da vida social, ou as diferentes “áreas de influência”: economia, direito, política, arte, ciência, família, educação etc. Não há uma só destas áreas de expressão comunitária sobre a qual Cristo não deva governar e o seu Reino não deva ser estabelecido. Cada esfera, como sendo criada e estabelecida por Deus, tem princípios da cosmovisão cristã que podem ser aplicados. Esta é a ação redentora de Deus e da sua Noiva: a aplicação da Verdade em todas as áreas da vida.

A Igreja é o único organismo capaz de ministrar às necessidades integrais do homem.

O chamado ao serviço comunitário, ao exercício intencional da influência sobre as diferentes esferas da vida social está no âmago da mensagem cristã. Como eclesia, ou seja, “uma assembleia de santos voltados para fora”, precisamos recuperar a nossa vocação histórica de agentes de transformação e esperança. Nosso destino é sermos relevantes. Neste caso, uma relevância interna não é suficiente. Espelhando-nos em Jesus, devemos procurar o testemunho externo ao grupo, grande legitimador da nossa mensagem profética de redenção. Partindo de uma forte vida devocional, que emerge dos templos e dos quartos secretos com portas fechadas nas nossas casas, o testemunho social da igreja deve invadir as feiras e praças da cidade, o ambiente de trabalho, a escola, a empresa, a universidade. A fé cristã não cabe entre quatro paredes. Neste agir transformador, onde a igreja vai revelando a peculiaridade da sua intervenção, que vai muito além dos modismos, das estatísticas ou do que é politicamente correto. É a manifestação contextualizada da Verdade refletindo quem Deus é: no serviço, na proclamação, na compaixão, na coragem, no amor. Da mesma forma, nenhum outro movimento pode ter a capilaridade da igreja: estamos em quase todas as comunidades do país! Este potencial de alavancagem para a transformação social não pode ser desperdiçado. É na comunidade que a fé acontece e assume os seus contornos. É na comunidade que se acendem as candeias. Isso é o que ansiamos: cada igreja, cada cristão como um agente de transformação de si mesmo e da sua própria comunidade.

Mauricio Cunha é missionário, autor, consultor, conferencista internacional, professor universitário, Conselheiro Nacional de Assistência Social, fundador do Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral (CADI). Profissional com 24 anos de experiência de trabalho em organizações sociais, em âmbito local e internacional. Coach profissional, com ênfase em empreendedores sociais e desenvolvimento de iniciativas sociais (www.cadi.org.br).