Apesar de a igreja nascer e começar sua missão debaixo da logomarca da cruz, há evidências de que algo muito errado está acontecendo nos dias de hoje: “O sinal de Cristo está faltando”, parafraseando Martinho Lutero. Embora semelhante ao evangelho original de Cristo, a mensagem freqüentemente pregada nos púlpitos se parece mais com o computador xingling manufaturado no fundo da loja paraguaia e comercializado no camelódromo da periferia: um produto genérico, de segunda linha, vendido abaixo do preço original e sem garantia de fábrica. Embora essas versões dos evangelhos tenham pontos semelhantes com o Novo testamento, no todo, são por um lado, moralistas, perfeccionistas e focados numa excessiva culpa ou, por outro, são neoliberais, humanistas, meros geradores de consumidores religiosos. D. A. Carson teme que a cruz, sem nunca ter sido desmentida, esteja constantemente em perigo de ser deslocada do lugar central que deveria ficar por causa dos diversos insights relativamente periféricos que assumem peso demais. Sempre que o periférico está em perigo de substituir o central, ficamos muito perto da idolatria. É evidente que algo está muito errado com o cristianismo atual. Para John Piper, é horrível ver o significado da cruz ser distorcido pelos profetas contemporâneos da autoestima que dizem ser a cruz, um testemunho de meu valor infinito. A. W. Tozer com tristeza olhou para a cruz do evangelicalismo popular dizendo: “Essa não é a cruz do Novo Testamento. É, sim, um novo ornamento brilhante sobre o peito de um cristianismo seguro de si e carna”. A velha cruz matou homens, a nova cruz os entretêm. A velha cruz condenava, a nova cruz diverte. A velha cruz destruiu a confiança na carne, a nova cruz encoraja.

Somente aos pés da “velha” cruz, descobrimos nossa nova humanidade como filhos do abba – Pai, nos apropriamos do sentido da vida e recebemos nova identidade: irmãos e irmãs de Jesus. A cruz demonstra que somos miseráveis pecadores, fracos, nus e impotentes. A perspectiva bíblica é que a cruz é um testemunho do infinito valor da glória de Deus, e um testemunho para a imensidão do pecado do meu orgulho. Através do Jesus enfraquecido, humilhado, sujo, impuro, ferido e ensangüentado, é que fomos curados, libertos e restaurados.

A existência cristã é a vida debaixo da cruz. Depois da crucificação da sexta-feira, vivida na amedrontadora escuridão do sábado e na assombrada madrugada, chega à manhã do domingo da ressurreição. Sua experiência presente irá repetidamente se parecer com a sexta-feira da paixão ou portar-se silenciosa e indefinidamente como o sábado de Páscoa. Parece, muitas vezes, que Deus não está presente nem atuante. Será que ele não percebe o que está acontecendo comigo? Por que Ele não responde minhas orações? A ausência é, na realidade, a presença oculta de Deus. A vida é assim, quer aceitemos ou não.

Mas aquele que ainda não se encontrou plenamente com o Jesus crucificado, não conhece o Deus oculto no sofrimento. Por isso, se possível, preferiremos boas obras ao invés do sofrimento, glória ao invés do desprezo, alegria ao invés da dor, coroa ao invés da cruz e força ao invés da fraqueza. Paulo chama essas pessoas de inimigos da Cruz, pois eles a odeiam e amam as obras e a glória das obras. Você odeia a cruz? Vive reclamando das “cruzes” da vida ao invés de agradecer e contentar-se com as muitas bênçãos? Temos que voltar nossos olhares para a Cruz de Jesus.

O verdadeiro papel da cruz de Cristo é conformar o homem ao Cristo da cruz. Tal qual, Jesus foi entregue, o cristão é entregue dia a dia. Quem não carrega sua cruz não é cristão. Ser cristão não é buscar o sofrimento ou ativamente imitar o sofrimento de Cristo; é sim, permitir que Deus nos conforme a Cristo, é tornar-se participante do caráter de Cristo. O cristão aceita o padrão de vida estabelecido pela cruz: vivemos entre o sofrimento da sexta-feira da paixão, rumando para a glória do domingo da ressurreição.

Entre a cruz e a ressurreição, encontra-se o segredo para a existência humana. J. I. Parker acredita que o mundo hoje questiona a igreja da mesma maneira que Tomé questionou Jesus: “A menos que eu veja em suas mãos as marcas dos cravos, não crerei”. É verdade. Somente o homem que morrer com Cristo testemunhará da cruz e poderá experimentar o poder da ressurreição. Entre a cruz e a ressurreição, está o caminho para a relevância da fé cristã dentro e fora da igreja. Entre a cruz e a ressurreição, está a chave para a redescoberta da identidade do cristão na sociedade contemporânea.

Dr. Rubens Muzio

Teólogo, Mestre em Teologia Pastoral pelo Calvin Seminary, em Michigan e Doutorado pelo Westminster Seminary, na Filadélfia, Pastor Presbiteriano, Missionário da Sepal e Escritor. astore 0105